Bolsonaro e a negação da ideologia no Enem 

Carolina Gomes Sant’ana

Desde o início de seu mandato como presidente, Jair Bolsonaro vem, abertamente, tentando interferir nas questões do Enem. Na segunda-feira que seguiu a aplicação da prova de 2021, o presidente afirmou: “Tão acusando aí o ministro Milton [Ribeiro] de ter interferido na elaboração das provas. Ora, se ele tivesse a capacidade e eu não teria nenhuma questão de ideologia nessa prova, que teve ainda. Você é obrigado a aproveitar o banco de dados de anos anteriores.” (XAVIER, 2021). Essa fala contradiz enunciados anteriores, em que ele afirma que a prova teria a cara de seu governo. Também em discordância com a negação de interferência e censura da prova, ele afirmou: “Agora dá pra mudar? Já está mudando. Vocês não viram mais a linguagem de tal tipo de gente com tal perfil. Não existe isso aí. A linguagem do que o cara faz entre quatro paredes é problema dele. Agora não tem mais aquilo de linguagem neutra de não sei de quem. Não tem mais” (XAVIER, 2021). A linguagem a qual ele se refere é conhecida como linguagem neutra, usada na comunidade LGBTQIA+, criada para evitar a categorização de gênero de sujeitos que não se identificam com o padrão binário tradicional e conservador. Nesta segunda fala, Bolsonaro não apenas mostra seu posicionamento axiológico de desrespeito a minorias, como assume sua intervenção na criação das provas. 

Deste tema surge a questão: É possível fazer uma prova de Enem livre de questões ideológicas? De acordo com os estudos do Círculo de Bakhtin, a resposta é não. Isso porque segundo o estudioso, todo enunciado é ideológico, pois este é a materialização da consciência do sujeito. E a consciência é constituída de ideologias e signos ideológicos. 

A consciência se forma e se realiza no material sígnico criado no processo da comunicação social de uma coletividade organizada. A consciência individual se nutre dos signos, cresce a partir deles, reflete em si a sua lógica  e as suas leis. A lógica da consciência é a lógica da comunicação ideológica.  (VOLÓCHINOV, 2018, p. 97) 

Podemos ver nos estudos do filósofo russo, que a ideologia não é um evento criado pela natureza e utilizado por humanos, mas sim uma construção social que existe apenas em grupos socialmente organizados e capazes de comunicação. Tendo em mente que esta comunicação não precisa necessariamente ser a oralidade, pode ocorrer de outras formas, como movimentos corporais, sons, expressões faciais, entre outros. É pela comunicação que os sujeitos transmitem ideias e informações para os outros, e nessas interações, em que o sujeito ao compreender o enunciado, assume posição responsiva. 

O ouvinte, ao perceber e compreender o significado (linguístico) do discurso, ocupa simultaneamente em relação à ele uma ativa posição responsiva: concorda ou discorda dele (total ou parcialmente), completa-o, aplica-o, prepara-se para usá-lo, etc.; […] toda compreensão é prenhe de resposta […] (BAKHTIN, 2011, p.271) 

São nessas interações que o sujeito tem sua consciência constituída por ideologias, que são semiotizadas pelos signos ideológicos. Já que, para Bakhtin, a palavra é meio ideal de comunicação, pois apresenta maior nuance e é capaz de mais fielmente representar conceitos, além de acompanhar mudanças sociais. Enquanto isolado, o signo é neutro de carga ideológica, é então potencialidade. Entretanto, quando é colocado em uso, na linguagem viva, no diálogo, o signo recebe do falante uma valoração ideológica. Todavia, quando este signo entra na consciência do ouvinte, ele entra, portanto, em um novo contexto, ela recebe nova valoração ideológica. Isso porque cada sujeito ocupa um lugar único na existência, possui uma vivência única, moldada pelas relações que ele estabeleceu com outros sujeitos e o mundo ao seu redor durante sua vida. Assim, cada sujeito possui seu ponto de vista único, sua consciência única. 

Essa multiacentuação do signo ideológico é um aspecto muito importante. Na verdade, apenas esse cruzamento de acentos proporciona ao signo a capacidade de viver, de movimentar-se e desenvolver-se. Ao ser retirado da disputa social acirrada, o signo ficará fora da disputa de classes, inevitavelmente enfraquecendo, degenerando em alegoria e transformando-se em um objeto de análise filológica e não da interpretação social viva. (VOLÓCHINOV, 2018, p. 113) 

Se os sujeitos têm a consciência constituída por ideologias, é, portanto, impossível produzir enunciados sem ideologias, pois é impossível compreender o mundo sem um viés ideológico. Cada signo utilizado pelo sujeito na enunciação é uma escolha ativa (mesmo que o sujeito não perceba que está fazendo essa escolha) para transmitir a ideia desejada. Assim, um enunciado neutro, livre de valoração ideológica não pode existir. Todo enunciado existe dentro de um contexto sócio-histórico-político específico (cheio de ideologias) e é produzido por um sujeito específico (constituído por ideologias). 

Ninguém pode ocupar uma posição neutra em relação a mim e ao outro; o ponto de vista abstrato-cognitivo carece de um enfoque axiológico, a diretriz axiológica necessita de que ocupemos uma posição singular no acontecimento único da existência, de que nos encarnemos. Todo juízo de valor é sempre uma tomada de posição individual na existência; até Deus precisou encarnar-se para amar, sofrer e perdoar, teve, por assim dizer, de abandonar o ponto de vista abstrato sobre a justiça. (VOLÓCHINOV, 2018, p. 117) 

Conclui-se então que por mais que Bolsonaro constantemente demonstra ser contrário a “questões ideológicas” no Enem, e tente censurá-lo, é impossível a existência de um enunciado não ideológico. O que o presidente deseja é, portanto, uma prova que apresente valorações ideológicas com as quais ele concorda, que incentivam a passividade social, a discriminação de minorias e o reforço de um sistema conservador patriarcal, racista, homofóbico e elitista, que mantém e reforça as estruturas de poder que beneficiam as elites em detrimento do resto da sociedade. A ideologia de Bolsonaro é a de violência, da discriminação, de negação da ciência e da miséria. 

Referências 

BAKHTIN, M. Estética da Criação Verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2011. VOLÓCHINOV, V. Marxismo e filosofia da linguagem. Rio de Janeiro: 34, 2018.

XAVIER, G. Bolsonaro diz que Enem teve questão ideológica e que não interferiu na prova. Carta Capital. Publicado em 2021. Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/politica/bolsonaro-diz-que-enem-teve-questao-ideologica-e-q ue-nao-interferiu-na-prova/. Acesso em: 22 de nov 2021.

UM LUGAR NA CULTURA

Fábio Augusto Alves de Oliveira

A morte de Marília Mendonça circulou massivamente nos meios de comunicação. De redes sociais a programas televisivos, o ocorrido foi abordado com vários sentidos e em diversos pontos: análises de teor machista e gordofóbico, apontamentos elitistas, relevância da artista no cenário musical no Brasil, sensacionalismo e afins. A lista é ampla. Nesse processo discursivo, bem ou mal, justo ou não, há respostas, variadas e complexas. O que não se pode negar, contudo, é o lugar de Mendonça na cultura.

Primeiro, para compreensão aqui, fica estabelecida cultura como, grosso modo, expressão humana. Com o Círculo, é possível ir mais a fundo. Nos escritos de Volóchinov (2017), Medviedev (2012) e Bakhtin (2011), sujeito é situado em um meio social concreto, em interação com o “outro”. Essa dinâmica entre consciências é fundamental, pois integra a constituição dialógica do sujeito, da linguagem e da cultura. Outro ponto importante é o valor. A interação social está sempre repleta de valorações, a partir das quais o sujeito interage com a vida social.

Em uma interpretação de Volóchinov (2017), a cultura é plena de signos. Em relação, há os pontos de vista distintos entre si que constituem a essência valorativa sígnica. É principal, portanto, pensar cultura como relação e movimento de sujeitos sociais, imersos em teias valorativas. São várias, assim, as dinâmicas estabelecidas no âmbito da cultura, em campos de atividade humana. 

Quando trata da constituição do sujeito, Bakhtin (2017; 2011) considera o lugar exotópico fundamental, visto que essa diferenciação determina a interação social. Na compreensão de cultura, a distância também é importante na relação dialógica do sentido. Nessa concepção, cultura é sempre aberta e dinâmica. O autor (2011, p. 366) ainda aponta que o encontro dialógico entre culturas revela a plenitude, a profundidade do sentido. Desse modo, valor, interação e exotopia são pontos constituintes.

No foco da discussão, Marília Mendonça e sua obra está em interação na cultura. Não só as canções, compostas ou não por ela, fazem parte da obra, mas também a encenação em palco, o modo de cantar, de se vestir e afins constituem a identidade de autora Marília Mendonça, cujo arquitetônica trata, em geral, de relações amorosas e seus conflitos e questões. As narrativas são variadas, como traição, superação, despedidas, desilusões. Temas presentes e recorrentes no estilo sertanejo, em que a artista atuava. Não de forma abstrata, o amor, nesse gênero musical, é materializado conforme os estilos autorais, com sujeitos concretos em interação. 

O fato é que a grande circulação das canções da artista, evidenciada pelos números e dados de reprodução1, significa um impacto social. Nesse ponto, a obra de Mendonça comunica valores que fazem parte da cultura brasileira e torna a autora uma artista fundamental e relevante para compreensão da lógica de mercado musical, de engajamento em mídias sociais, do impacto de narrativas, de representatividade. Não há aqui como medir em exatos. O certo, como já dito, é o lugar concreto de Mendonça na cultura.

Se a arte é reflexo e refração da vida, conforme diz o Círculo, é correto pensar que a obra de Marília Mendonça materializa a vida social, a cultura em determinado espaço-tempo. Por esse motivo, as canções textualizam tensões sociais, como o papeis de gênero na sociedade e concepções de amor e de afetividade. Não de modo mecânico, Mendonça, enquanto autora, mobiliza, tem adesão, afeta, sensibiliza etc. grandes públicos, fato que traz à tona uma das facetas da arte em sua relação cultural com o sujeito.

Também no fato da morte, compreendida em termos de discurso, a cultura está presente. Em múltiplas respostas ao ocorrido, a gordofobia e o machismo, lógicas presentemente concretas na sociedade brasileira, deram o tom. Da mesma forma, um “intelectualismo musical” que rebaixa a artista e o gênero, esquivando-se da relevância de Mendonça na canção brasileira. Também, a forma como é circulada a notícia: o sensacionalismo e exploração da tristeza em redes sociais são aspectos culturais. 

Enquanto sujeito social, a autora Marília Mendonça é constituída na cultura, em vários aspectos. Sem repartições de “alta” e “baixa” ou “elite” e “popular”, a obra em sua relação social justifica o lugar da artista na cultura. Trata-se, pois, de um nome extremamente relevante no cenário artístico-musical brasileiro.

 1Disponível em: Aos 22, Marília Mendonça se tornou a mais ouvida do Brasil – 05/11/2021 – Ilustrada – Folha (uol.com.br). Acesso em: 19 de novembro de 2021.

UM LUGAR NA CULTURA: Este texto é uma reposta, de tal maneira que é constituído por diálogos. Nomeio aqui responsáveis nesse trajeto, além dos já presentes nas referências: Ana Carolina Siani, Elizabete Sanches Rocha (e a disciplina “Cultura e linguagem”), Guilherme Galvão. 

REFERÊNCIAS:

BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. 6.ed. São Paulo: Martins Fontes, 2011.

BAKHTIN, Mikhail. Para uma filosofia do ato responsável. São Carlos: Pedro & João, 2017.

LARAIA, Roque. Cultura: um conceito antropológico. 19.ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2006.

MEDVIÉDEV, Pável. O método formal nos estudos literários: introdução crítica a uma poética sociológica. São Paulo: Contexto, 2012.VOLÓCHINOV, Valentin. Marxismo e filosofia da linguagem: problemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem. São Paulo: 34, 2017

Reflexões bakhtinianas sobre o perigo de uma história única.

Isabella Lourenci Kojima

Chimamanda Ngozi Adiche, escritora nigeriana, feminista e ativista, relata em seu livro “O perigo de uma história única”, uma ideia que a auxiliou na diversificação das fontes do conhecimento de histórias, na cautela ao ouvir e acreditar em apenas uma versão dos fatos, a não generalizar vidas e acontecimentos e por fim, a necessidade de questionar, pesquisar e se deslocar do seu lugar a partir de suas experiências. Por conseguinte, sabe-se que o signo ideológico é composto por inúmeras ideologias e a partir da cristalização de ideologias dominantes se constroem no âmbito social os estereótipos, então por motivo desse meio social em que estamos, por influência do que consumimos e por falta de conhecimento, acreditamos em uma única realidade. Dessa maneira, a partir da interação social e esse contato com o signo ideológico em coletividade os sujeitos se conectam pela linguagem e à medida que compreendemos que a língua está inserida no social, pois fora dele não pode haver comunicação, essas relações descritas no livro fazem com que essa interação ideológica construa um enunciado.

Como uma boa contadora de histórias, inicialmente a escritora relembra a sua primeira percepção sobre falas clichês sem se deslocar de onde está, a narradora teve uma infância baseada em inúmeros valores e conhecimentos, sua família convivia com a mãe de Fide, que trabalhavam na casa deles diariamente e por causa dessa colocação social, era cobrada por comer tudo que estava no prato, já que a família do garoto não tinha nada, então por sempre ouvir sermões acreditou que seria certo sentir pena e desprezo pelo menino e a sua família. Um dia, ao visitar a casa deles e ver um cesto lindo, elaborado  e super bem desenhado feito pelo irmão de Fide, ficou espantada, pois não imaginava que alguém fosse tão talentoso, até porque ela só ouvia que eles eram pobres, viviam de doações e eram dignos de dó.

Quanto a pobreza dessa história única sobre Fide, temos a conclusão de que se você ouvir apenas uma versão, automaticamente você passa a acreditar nela até alguém te mostrar o outro lado. A linguagem, portanto, nos auxilia nessa posição diante do mundo, ou seja, pode haver inúmeras diferenças que você pode escolher acreditar ou não, afinal é por meio da linguagem que construímos sentidos e que construímos a nossa realidade.

Em seguida, na sua época de estudante universitária, Chimamanda foi alvo do reflexo da imagem generalizada do continente africano, por simplesmente normalizarem que lá é um lugar com guerras, fome, pobreza e isso não estava de acordo com a adolescente que se comunicava através da língua inglesa perfeitamente, que escutava a cantora Madonna e não músicas tribais. Outro exemplo de história única, é a romantização de que o Brasil é apenas o país do futebol e do carnaval e acordo com a autora: “É assim que se cria uma história única: mostre o povo como uma coisa, uma coisa só, sem parar, e é isso que esse povo se torna.” (ADICHE, 2019, p 22), dessa forma esse sistema de crenças vem se propagando e atingindo não só histórias, mas vidas, de forma que estar fora do padrão se torna algo irreal.

Segundo Volóchinov “Uma palavra nos lábios de um único indivíduo é um produto de interação viva das forças sociais”, ou seja, não há como a palavra em ato não ser o resultado (produto) da interação viva social desse indivíduo com os outros e essas ênfases sociais são o meio de comunicação e vivência do sujeito. Logo, a palavra como resultado da interação, é permeada de forças e carrega vários valores, ideologias, crenças e dependendo de como ela é utilizada pode ter uma força negativa ou positiva, pode afastar ou aproximar os sujeitos e os ideais. Na narrativa, o surgimento de estereótipos surge quando a interação social se limita a reproduzir somente um aspecto negativo ou pejorativo, consequentemente criam uma imagem que não condiz com a realidade, nem sempre propositalmente, mas por só ver e acreditar em um lado da história, do signo e o signo, como Volóchinov afirma, comporta duas ou mais faces. 

Os indivíduos são complexos e formados por múltiplos aspectos, por isso a compreensão da diversidade se torna uma tarefa mais difícil, sendo assim essa relação do eu com o outro desenvolve um diálogo e a partir das experiências você aprende, como sujeito social, a se deslocar do seu lugar para imaginar o que o outro passa ou passou e não se apropriar de estereótipos falhos e visões únicas. Consequentemente, esse olhar externo não significa que você vai estar na situação e sentir algo, mas como sujeito de conhecimento, cultura, valores, memórias e imaginação é possível se deslocar de seu posicionamento e poder observar as dimensões do ser humano.

Outra história única que recaiu sob as suas vivências, foi sobre o seu trabalho literário, criticado por não ser “autenticamente africano” já que os personagens viviam uma vida normal dirigindo, trabalhando, se alimentando normalmente e não uma vida estereotipada, vivida para os outros por simplesmente a autora ser do continente africano. Desse modo, essa diferenciação entre eu e o outro é uma consequência grave de histórias únicas, pois o que ressoa em alguém é social e essa individualização cria expectativas que nem sempre são atingidas, por isso a construção do sujeito a partir de opiniões, histórias e generalizações deve ser organizada em coletividade, com comunicação e com a interação pela linguagem, afinal o sujeito só se torna sujeito através dessa relação com o outro mantendo as relações dialógicas, sociais, os acontecimentos, as vivências e as representações, assim como nas histórias contadas por Chimamanda.

Ademais, nunca foi tão simples acessar séries, livros, aplicativos e filmes, porém esses produtos repassados transformam visões e distorcem histórias. Então, em tempos de intolerância e radicalismos, a obra de Chimamanda Ngozi Adiche é um convite para aqueles que querem despertar de alguma maneira que a história nunca será única. Portanto não tem como favorecer apenas uma verdade sem outras perspectivas, assim acontece com a linguagem, que é um organismo vivo, em constante mudança e ainda sim querem normalizá-la, prezam o gramatiquês, o purismo linguístico e reproduzem o preconceito linguístico, mas a língua é um ato, um objeto do mundo exterior, se expressar, falar ter uma história significa unir o individual a natureza humana geral e a linguagem junto com a língua proporciona todas essas interações e esse processo de construção de sentido se dá quando rejeitamos uma única história e percebemos que nunca há apenas uma história sobre um lugar, assim ressignificam-se vidas e vivências sociais.

REFERÊNCIAS:

VOLÓCHINOV, Valentin Nikolaevich. Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo: Editora 34, 2018.

Adichie, Chimamanda Ngozi. O perigo de uma história única. Companhia das Letras, 2019.

ALVES, Bruno. Chimamanda Adichie: O perigo de uma história única. 2012. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=EC-bh1YARsc&ab_channel=BrunoAlves. Acesso em: 5 de novembro de 2021.

LUCAS, Antônio. Resenha: O perigo de uma história única. Site Deviante. 2019. Disponível em: https://www.deviante.com.br/noticias/resenha-o-perigo-de-uma-historia-unica/. Acesso em: 6 de novembro de 2021.

Aproximações entre o pensamento de Kandinsky e do Círculo de Bakhtin: os estudos soviéticos da linguagem

José Antônio Rodrigues Luciano

Introdução

Desde o final do século XIX até as primeiras décadas do século XX, a Rússia viveu um conturbado momento sociopolítico com sucessivas transformações no regime de governos e na estrutura da sociedade. A título de ilustração, podemos citar a Revolta Dezembrista de 1825 na passagem para o reinado do czar Nicolau I até a Revolução de Outubro em 1917, que deu início à União Soviética. Em ambos os acontecimentos históricos, destaca-se um período de perseguições políticas a opositores, exílios, aparelhamento do Estado e censura.

Diante de todo contexto pouco favorável aos intelectuais e à multiplicidade de ideias tanto na Rússia czarista quanto na soviética, resultou em uma ausência de estabilidade na sociedade civil ainda emergente em ambos os períodos, contribuindo para a formação espontânea de círculos informais, em um “subsolo filosófico” (TIHANOV, 2017). Esse processo de instabilidade sociopolítica afetou, direta e particularmente, as ciências humanas bem como a arte, pois a linguagem, nesta época, foi prejudicada (lexemas foram proibidos, assuntos restringidos, e, dessa forma, já não havia vocabulário para a produção científica).

Em consequência dessa palavra autoritária, intelectuais começaram a formular um novo discurso tanto nas Ciências Humanas e quanto nas artes com experimentos de e na linguagem. A reflexão em torno da linguagem estética era uma forma de observar e formular indiretamente críticas a respeito da realidade russa na forma de teoria da arte, evitando a censura e perseguição por parte do Estado. Por exemplo, a influência da literatura e das revistas por onde eram publicados os textos se intensificou com nomes como o de Púckhin, Gógol, Tchaádaiev, Liérmontov e Koltsov. Além da Inglaterra, em nenhum outro lugar a importância das revistas foi tão grande quanto na Rússia. Nomes como O Telégrafo [Telegraf], O mensageiro de Moscou [Moskóvski Viéstnik], O Telescópio [teleskop], Biblioteca para a Leitura [Bibliotieka dliá Tchtiénia] e outros democratizaram e difundiram conhecimentos, conceitos, ideias e textos literários. Protagonismo que voltou a acontecer posteriormente, a partir da Revolução Russa de 1917, seguida da instauração do regime soviético.

Assim, podemos entender a opção pela continuidade da reflexão da realidade por meio do material estético, pois “o relacionamento e as fronteiras entre estética e ética como dimensões da vida e da cultura” (BRANDIST, 2002, p. 34, tradução nossa[1]).

No início do século XX, então, foi que os processos de criação e estudo da linguagem alcançaram seu ápice. De acordo com Boris Schnaiderman (2010, p. 18), “a interpenetração das artes encontra então seu momento privilegiado”. Nesse cenário, é possível observarmos:

A relação dos poetas cubo-futuristas russos com a pintura e o cinema; a preocupação dos próprios simbolistas, sobretudo Andréi Biéli, com a problemática do signo; as experiências teatrais de Meyerhold, Taírov, Vakhtangov e outros, que ampliaram o campo de ação do teatro, visto na totalidade dos elementos visuais e sonoros, enquanto a própria semiótica do teatro já era iniciada com os trabalhos de P. Bogatirév; os projetos arrojadíssimos de Tátlin, em que a escultura e a arquitetura se fundiam e criavam-se conjuntos giratórios emissores de sons; as experiências gráficas de El Lissitski, que elevavam a tipografia à condição de arte maior; enfim, são realizações e mais realizações, todas no sentido de expressar uma das aspirações máximas do século: arte, ciência e técnica, fundidas numa totalidade e oferecidas ao homem para uso cotidiano. (idem, p. 18-19)

Somam-se, ainda, a esses trabalhos, as realizações de Eisenstein no teatro e no cinema com seu interesse pela sinestesia; os projetos Víctor Chklóvski e Óssip Brik como roteirista; as fotomontagens de Ródtchenko, em colaboração com Maiakóvski e o cineasta Dziga-Viertov (SCHNAIDERMAN, 1971); os estudos linguista Nicholas Yakovlevich Marr (marrismo) sobre a origem da linguagem dos gestos como predecessora da língua verbal e a relação do surgimento desta com o uso de instrumentos e os de Mikhail Mikhaylovich Ivanov, crítico musical que possui trabalhos como Púchkin em música. Como nos aponta Ivanova (2011), trata-se de uma situação geral de pesquisa neste período entre o final do século de XIX e começo do XX, com apogeu nos anos 20. A linguística soviética buscou novidades em outros campos criativos (no teatro, na música, na literatura, nas belas-artes etc) durante esse período, com o intuito de criar objetos, materiais e caminhos e metodologias. Nesse sentido, podemos expandir tal afirmação ao evidenciar que não apenas a linguística se caracteriza nessa condição, mas um movimento amplo entre os intelectuais da época.

Por conseguinte, é partir desse lugar que temos neste trabalho o objetivo propor reflexões iniciais, do ponto de vista teórico, acerca da convergência entre o pensamento de Kandinsky e as ideias do grupo de pensadores russos, conhecido como Círculo de Bakhtin (ou, ainda, Círculo B.M.V), sobretudo em relação à concepção de linguagem, compreendida de maneira interrelacional e indissociável (isto é, ao mesmo tempo verbal, visual e sonora), que perpassa as reflexões dos autores, como parte de um contexto maior de investigação sobre a interação tridimensional das linguagens, na qual Kandinsky e o Círculo de Bakhtin estão inseridos. Essa proposta integra nossas pesquisas que vimos desenvolvendo, as quais estão voltadas ao contexto russo e, principalmente, na compreensão da noção tridimensional da linguagem verbivocovisual da/na filosofia bakhtiniana (PAULA e LUCIANO, 2020; LUCIANO, 2021).

A hipótese é que, no cenário de intensas pesquisas e experimentações com/sobre a linguagem, artistas e pensadores de diferentes áreas buscavam compreender os signos não apenas como um instrumento de representação semiótica, mas como a própria constituição material da realidade humana, ou seja, da existência. Desse modo, os signos (verbal, visual e sonoro) ganham unidade concreta no sujeito, por meio do qual se articulam para a expressão da realidade social.

Para o desenvolvimento do trabalho, além de escritos de Schnaiderman (1971; 2010), Ivanova (2001), Brandist (2002) e Tihanov (2017) na breve recapitulação histórica acima feita, tomamos também as obras do Círculo e de Kandinsky, deste último, em especial, Do espiritual na arte (1996) e Ponto, linha e plano (1970). Com isso, o intuito do trabalho é poder lançar um novo olhar na compreensão da linguagem e no entendimento das reflexões postas pelos teóricos e pelo pintor russos.

A interrelação tridimensional da linguagem: uma aproximação de Kandinsky e Círculo de Bakhtin

Antes de adentrarmos propriamente ao pensamento teórico do Círculo B.M.V e de Kandinsky, cabe-nos ressaltar as respectivas formações intelectuais, as quais decerto contribuíram para suas reflexões. A composição do coletivo pensante bakhtiniano era constituída por filósofos, musicistas, biólogo, literatos, poetas, dentre outros, que tinha a linguagem como o ponto central nas discussões do grupo, de modo que os olhares heterogêneos em torna dela propiciaram uma reflexão ampla na formulação filosófica desses estudiosos. De maneira semelhante, Kandinsky pode ser visto como um multi-intelectual, uma vez que, durante sua carreira, dedicou-se à música, à poética e à pintura, ainda que seja reconhecido quase exclusivamente por esta última. Além disso, o pintor russo lecionou em Bauhaus entre os anos de 1922 e 1933 (ano de fechamento pelos nazistas), escola de vanguarda que tinha como uma de suas propostas a combinação entre a pintura, arquitetura, música, teatro e outras artes. Eis que encontramos, aqui, as primeiras convergências que nos indicam para uma compreensão interrelacional da linguagem.

Tal posição de Kandinsky e do Círculo se manifestará desde a abordagem que cada autor[2] desenvolverá em suas produções teóricas. O primeiro, ao analisar o movimento de interiorização do homem na arte, debruça-se sobre o procedimento na literatura, na música e na pintura, de maneira a compreender como ocorre em cada materialidade semiótica a partir de suas especificidades técnicas. Por exemplo, em Maeterlinck, a palavra poética é determinada na alma pela entonação em que é pronunciada, gerando uma complexa vibração interior. Na música, isso ocorre por meio de leitmotiv puramente musical, no caso das obras de Wagner. E na pintura aparece com as manifestações impressionistas, na quais tendem para o abstrato (KANDINSKY, 1996).

Ao estudar as categorias de espaço e tempo, Bakhtin (2011) utiliza o mesmo recurso tomado pelo pintor russo. O filósofo aponta o nível de abstração que há na categoria espacial, sendo plenamente realizada nas artes visuais devido ao material externo e menos concretizada na música, que se manifesta mais plenamente na forma temporal do material externo.

Todavia, a aproximação efetiva entre Kandinsky e o Círculo B.M.V no que se refere a uma concepção interrelacional da linguagem se dá explicitamente no entendimento da geral da arte, e da linguagem, expostas por cada autor em seus textos. Assim encontramos em Do espiritual da arte, do pintor, e em “O Problema do texto” do filósofo:

Cada arte, ao se profundar, fecha-se em si mesma e separa-se. Mas compara-se às outras artes, e a identidade de suas tendências profundas as leva de volta à unidade. Somos levadas assim a constatar que cada arte possui suas forças próprias. Nenhuma das forças de outra arte poderá tomar seu lugar. Desse modo se chegará, enfim, à união das forças de todas as artes. (KANDINSKY, 1996, p. 59, grifos nossos)

Todo sistema de signos (isto é, qualquer língua), por mais que sua convenção se apoie em uma coletividade estreita, em princípio sempre pode ser codificada, isto é, traduzido para outros sistemas de signos (outras linguagens); consequentemente, existe uma lógica geral dos sistemas de signos, uma potencial linguagem das linguagens única (que, evidentemente, nunca pode vir a ser uma linguagem única concreta, uma das linguagens). (BAKHTIN, 2011, p. 311, grifos nossos)

Nos excertos acima, observamos não apenas a possibilidade de uma unidade geral das linguagens, mas também a independência de cada material semiótico, sem viabilidade de que um seja capaz de substituir o outro, visto que cada materialidade – com seus meios, formas e princípios – expressa diferentes aspectos da realidade interior e exterior do homem e untas constituem a existência do ser e do mundo. A linguagem encontra-se sua unidade no sujeito, por meio dela ele ganha existência, assim como, o signo só passa a ter concretude ao ser in-corporado pelo homem na busca pela expressão de si e da realidade que o circunda.

Considerações Finais

Certamente, os apontamentos feitos ao longo deste trabalho requerem e merecem maior aprofundamento sobre tema, que pretendemos realizar no decorrer do nosso projeto de Doutorado, como um eixo complementar. Contudo, algumas apreciações são já nos permitida:

A primeira, e talvez a mais evidente, refere-se à abertura para a possibilidade de investigação teórica acerca da relação entre as ideias de Kandinsky e as do Círculo de Bakhtin, sobretudo vista inserida dentro de um contexto maior de pesquisa na União Soviética, entre artistas e cientistas da linguagem (papeis que, muitas vezes, se confundiam em um único sujeito).

Em segundo lugar, é possível notarmos aparente recorrência metodológica nos estudos desenvolvimentos no regime soviético na época em questão. Trata-se da acentuação, enquanto método consciente e sistemático de pesquisa, procedimentos comparativos entre as artes no estudo das categorias conceituais da linguagem. Isso nos fica evidente não apenas reincidência que mostramos nos dois pensamentos apresentados e relacionados, mas nas palavras de Kandinsky (1996), em que afirma não bastar apenas comparar os procedimentos entre as diferentes artes, é preciso “ajustar-se aos princípios de uma e de outra. Uma arte deve aprender de outra arte o emprego de seus meios, inclusive os mais particulares, e aplicar depois, segundo seus próprios princípios, os que são dela e somente dela” (p. 58), sem esquecer-se que cada meio corresponde à particularidade de cada linguagem. Ainda segundo o pintor, é em função disso a busca por ritmo na pintura. Ademais, essa prática aparece também nos trabalhos de Fortunatov (2010) que vai pensar a ritmo na prosa literária na relação com arquitetura, na música e nas artes plásticas. Uspênski (2010), de modo semelhante, reflete sobre os elementos estruturais comuns às diferentes formas de arte, em especial, na literatura e na pintura. O que nos parece, aqui, é que tal método, ao possibilitar compreender as aproximações e particularidades de cada arte/linguagem, também permitiu realizar as inovações e experimentações de/com linguagem na Rússia soviética. Observação que converge com os dizeres de Kandinsky no prefácio à segunda edição de sua obra Ponto, linha e plano (1970, p. 23), ao expor que o desenvolvimento analítico e sintético “afectou não só a pintura mas também as outras artes ao mesmo tempo que as ciências ‘positivas’ e ‘humanas’ ”.

Por fim, uma última constatação, volta-se para o entendimento de uma noção de linguagem interrelacional, tridimensional, que permeia os estudos desse período, em que as dimensões verbal, sonora e visual estão constantemente no horizonte dos intelectuais russos. É claro que a abordagem e enfoque na realização dessa prática são os mais diversos possíveis, o que resultam em conclusões distintas em certa medida, por exemplo, Kandinsky o faz a partir do viés subjetivo, pois buscava a emancipação da arte (posição semelhante à dos Formalistas Russos), em resposta às tendências materialistas da época, que objetivavam ser o objeto estético imitação direta da realidade. Ao contrário, o Círculo B.M.V formula suas reflexões sob o viés do sociologismo, considerando a linguagem um objeto imanentemente social, em oposição às correntes formais. Todavia, o que nos parece passível de constatação é a compreensão de uma unidade geral da linguagem, a qual abrange as dimensões verbivocovisuais, presente nas pesquisas na União Soviética.

Referências

BAKHTIN, Mikhail. Estética da Criação Verbal. Trad. de Paulo Bezerra. 6ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2011.

BRANDIST, Craig. The Bakhtin Circle: Philosophy, Culture and Politics. London: Pluto Press, 2002.

FORTUNATOV, Nikolai Mikhailovich. O ritmo da prosa literária. Trad. Aurora Fornoni Bernardini. In: SCHNAIDERMAN, B. (org.). Semiótica russa. 2ª edição. São Paulo: Perspectiva, 2010. p. 219-220.

IVANOVA, Irina. O diálogo na linguística soviética dos anos 1920-1930. Bakhtiniana. Revista de Estudos do Discurso, [S.l.], n. 6, p. 239-267, nov. 2011. ISSN 2176-4573. Disponível em: < https://revistas.pucsp.br/bakhtiniana/article/view/6089 >. Acesso em: 23 maio 2020.

KANDINSKY, Wassily. Do espiritual na arte: e na pintura em particular. São Paulo: Martins Fontes, 1996.

_____. Ponto e linha sobre plano: contribuição à análise dos elementos da pintura. Lisboa: Edições 70, 1970.

LUCIANO, José Antonio Rodrigues. Filosofia da linguagem bakhtiniana: concepções verbivocovisuais. 2021. 278f. Dissertação (Mestrado em Linguística e Língua Portuguesa) — Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, Faculdade de Ciências e Letras (Campus Araraquara), Araraquara, SP 2020. Disponível em: < http://hdl.handle.net/11449/204473 >

PAULA, Luciane de; LUCIANO, José Antonio Rodrigues. Filosofia da linguagem bakhtiniana: concepção verbivocovisual. Revista Diálogos – RevDia. Cuiabá (MT), v. 8, n. 3 (2020), p. 132-151. Disponível em: https://periodicoscientificos.ufmt.br/ojs/index.php/revdia/article/view/10039. Acesso 30 de outubro 2020.

SCHNAIDERMAN, Boris (org). A poética de Maiakóvski através de sua prosa. São Paulo: Perspectiva, 1971.

___. Semiótica na U.R.S.S.: uma busca de “elos perdidos” (á guisa de introdução). In: SCHNAIDERMAN, B. (org.). Semiótica russa. 2ª edição. São Paulo: Perspectiva, 2010. p. 9-27.

TIHANOV, Galin. Filosofia e pensamento social russo: continuidades depois da Revolução de Outubro. Estudos Avançados, v. 31, n. 91, p. 9-24, 1 dez. 2017.

USPÊNSKI, Boris Andreevich. Elementos estruturais comuns às diferentes formas de arte: princípios gerais de organização da obra em pintura e literatura. Trad. Aurora Fornoni Bernardini. In: SCHNAIDERMAN, B. (org.). Semiótica russa. 2ª edição. São Paulo: Perspectiva, 2010. p. 163-220.

[1] No original: “the relationship and boundaries between aesthetics and ethics as dimensions of life and culture”

[2] Em relação ao Círculo de Bakhtin, compreendemos uma única autoria realizada coletivamente. Por isso, referência ao grupo como “um autor”.

Bolsonaro e a pretensa não-ideologia do seu governo

Por Leonardo de Oliveira 

Pelo menos desde a última campanha eleitoral para a presidência da república, em 2018, Jair Messias Bolsonaro vem fazendo sucessivas afirmações acerca de duas das questões que considera mais graves no Brasil: a da corrupção e a dos vieses ideológicos dos governos que o antecederam e de outros mundo afora. Em uma postagem feita via Twitter durante o pleito em questão, afirmou que 

A questão ideológica é tão, ou mais grave, que a corrupção no Brasil. 
São dois males a ser combatidos [sic]. O desaparelhamento do Estado, 
e o fim das indicações políticas, é o remédio que temos para salvar o 
Brasil. (BOLSONARO, 2018). 

Nota-se na asserção do presidente a compreensão de que a ideologia é um erro gravíssimo a ser combatido, um desvio ético que coloca até mesmo a frente de atos de corrupção, como se pode conferir ainda na alegação, também reiterada na ocasião da corrida eleitoral, de que “a questão ideológica é muito mais grave que a corrupção” (BOLSONARO, 2018). 

Calcado nessa visão ingenuamente avessa a ideologias, o presidente fez da superação desse suposto problema praticamente um lema do seu governo e, por conta disso, sempre repisa em suas declarações a necessidade de se superar qualquer inclinação ideológica na condução do país. Somente em seu discurso de posse, o mandatário recém-eleito comprometeu-se a “reerguer a nossa pátria, libertando-a, definitivamente, […] da submissão ideológica” (BOLSONARO, 2019), afirmou que iria “combater a ideologia de gênero” (BOLSONARO, 2019), ressaltou a necessidade de se estimular “a competição, a produtividade e a eficácia, sem o viés ideológico.” (BOLSONARO, 2019), dentre outras menções que fez ao termo ideologia e a suas derivações. Empenhado em “banir” condutas ideologicamente enviesadas da sua gestão, Bolsonaro foi categórico ao assegurar durante sua participação no Fórum Econômico Mundial de Davos de 2019, que “Nossas relações internacionais serão dinamizadas pelo ministro Ernesto Araújo, implementando uma política na qual o viés ideológico deixará de existir” (BOLSONARO, 2019).

Entre uma e outra alusão pública ao que entende como um sério entrave ao desenvolvimento da nação, o presidente coloca a ideologia como algo inerente a governos de esquerda, razão pela qual sempre usa o termo em tom de crítica depreciativa, como se o aspecto ideológico fosse a razão de grande parte das mazelas vividas por povos sob o comando de governos como os de Lula, Dilma, Hugo Chaves e Fidel Castro, que volta e meia ele cita como “maus exemplos”. Uma boa amostra do esforço de Bolsonaro por associar a esquerda à “questão ideológica”, tão rechaçada por ele e por seus entusiastas, está no discurso que proferiu na 74º Assembleia Geral das Nações Unidas, no qual “assevera” que 

Durante as últimas décadas, nos deixamos seduzir, sem perceber, por
sistemas ideológicos de pensamento que não buscavam a verdade, mas
o poder absoluto. A ideologia se instalou no terreno da cultura, da
educação e da mídia, dominando meios de comunicação,
universidades e escolas. A ideologia invadiu nossos lares para investir
contra a célula matter de qualquer sociedade saudável, a família. 
Tentam ainda destruir a inocência de nossas crianças, pervertendo até
mesmo sua identidade mais básica e elementar, a biológica. O
politicamente correto passou a dominar o debate público para expulsar
a racionalidade e substituí-la pela manipulação, pela repetição de
clichês e pelas palavras de ordem. A ideologia invadiu a própria alma
humana para dela expulsar Deus e a dignidade com que Ele nos
revestiu. E, com esses métodos, essa ideologia sempre deixou um
rastro de morte, ignorância e miséria por onde passou. Sou prova viva
disso. Fui covardemente esfaqueado por um militante de esquerda e só
sobrevivi por um milagre de Deus. Mais uma vez agradeço a Deus
pela minha vida. (BOLSONARO, 2019b). 

O seu discurso denota uma clara ojeriza pelas agendas implementadas ao longo das últimas décadas pela esquerda, agendas essas que, do lugar conservador de extrema direita que ocupa, ele enxerga como sendo instauradoras de um estado de caos político, econômico, moral, social e cultural. Ao apresentar no discurso em questão a sua “denúncia” contra a pretendida degradação promovida pelo Partido dos Trabalhadores, Bolsonaro generaliza de forma perversa as condutas e as visões de mundo daqueles que se identificam com as pautas defendidas pelo campo progressista quando os vincula ao sujeito que o esfaqueou durante a campanha eleitoral da qual saiu vitorioso. Dessa forma, ele concretiza seus projetos de sentido e de poder anti-esquerdistas a partir de enunciados que escancaram as suas orientações socioideológicas, em geral, nada razoáveis.

A natureza da ideologia 

Lançamos mão desses enunciados nos quais Bolsonaro alude à ideologia porque pretendemos refletir aqui sobre o papel dela na constituição dos meios sociais, dos sujeitos de das culturas. Assim, partimos desses enunciados reais e concretos para confrontarmos o juízo do sujeito ocupante da cadeira da presidência acerca da questão ideológica com as considerações de Volochinov sobre ela. 

Como visto, o presidente não só dá frequentes demonstrações da visão extremamente negativa que construiu acerca das ideologias como ainda as considera algo a ser erradicado por compreendê-las como atributo exclusivo das orientações políticas de esquerda, o que nos leva a seguinte indagação: seria possível uma gestão sem viés ideológico tal qual pretendido pelo atual dirigente da república? 

Em A construção da enunciação e outros ensaios, Volochinov faz a seguinte definição do conceito de ideologia: “por ideologia entendemos todo o conjunto de reflexos e interpretações da realidade social e natural que se sucedem no cérebro do homem, fixados por meio de palavras, desenhos esquemas ou outras formas sígnicas.” (2013, p.138, nota de rodapé). Pensando em termos bakhtinianos, a definição já nos dá a ideia de que a ideologia é inerente a nossa própria constituição enquanto sujeitos, já que todos nós temos concepções acerca da vida, do mundo ao nosso redor, do outro e de nós mesmos e, nesse sentido, torna-se oportuno discutirmos o processo histórico que nos levou a tal condição. 

Ao tratar do surgimento da linguagem, Volochinov (2013) nos mostra a ligação essencial das expressões enunciativas com a organização sócio-econômica recém constituída no seio dos grupos humanos primitivos. Em resumo, o seu raciocínio é o de que, a partir do momento em que o homem percebe que o convívio em grupo lhe dá mais garantias de sobrevivência em um mundo hostil e ainda pouco compreendido, surgem os primeiros rudimentos de organização social e de gerenciamento de tarefas necessárias ao suprimento das necessidades dos seus membros. O estudioso afirma que “a atividade coletiva somente era possível com a condição de que houvesse pelo menos uma coordenação mínima das ações, pelo menos uma capacidade mínima de representar-se o objetivo comum” (2013, p. 142 – itálicos originais), numa articulação que possibilitasse manter a coesão dessa coletividade a partir da compreensão recíproca que isso exigia. É em nome dessa necessidade de compreensão mútua que a linguagem desponta e permite a construção do que o autor chama de consciência social, sempre materializada em signos. Entendendo a linguagem como “condição necessária para a organização do trabalho humano” (2013, p. 143), o pensador russo nos mostra que, com a complexificação das atividades desenvolvidas pelo homem, os sujeitos passam a ter diferentes atribuições e, em consequência, diferentes direitos e deveres, diferenças justificadas, sobretudo, por aqueles que detinham maior domínio das linguagens, formas de expressão em certa medida ainda misteriosas para os seres humanos primitivos e cuja melhor compreensão por parte de alguns lhes conferia algum poder. Assim, “desde o amanhecer da história humana, a linguagem coopera involuntariamente para criar os embriões da divisão de classes [sociais] e de patrimônios da sociedade.” (2013, p. 144 – itálicos originais). 

Essa visão de Volochinov acerca da constituição da linguagem nos deixa claro o seu caráter essencialmente sociológico, do qual não podemos dissociar uma dimensão ideológica também intrínseca. Ainda na obra A construção da enunciação e outros ensaios, o autor analisa a co-dependência entre a linguagem e a consciência, assim como entre esta e as sensações por nós experimentadas, articulações sobre as quais esclarece que “até a tomada de consciência simples, difusa, de qualquer sensação, mesmo de fome, inclusive no caso de não haver qualquer expressão exterior, necessita de uma forma ideológica” (2013, p. 149) e que “uma consciência que não se encarna no material ideológico da palavra interior, do gesto, do signo, do símbolo, não existe ou não pode existir.” (2013, 151). 

Assertivo em relação à inerência da ideologia no fenômeno da linguagem, Volochinov demonstra, então, que ela é inclusive constitutiva dos sujeitos, afinal, somente engajados em trocas sígnicas podemos tomar consciência do que somos, do outro e do mundo. Assim, a cada instante da nossa existência refletimos e refratamos a realidade a partir de um conjunto de sensações corriqueiras a que ele chama de ideologia cotidiana, com a qual damos sentido e compreendemos tudo o que existe e acontece ao nosso redor a partir de materializações sígnicas. É dessa ideologia cotidiana, digamos primária, que surgem construções ideológicas mais complexas, à medida que as relações econômicas, sociais e de trabalho tornam-se mais sofisticadas, construtos esses que, por sua vez, fertilizam o substrato ideológico primário do qual se originam e o torna aberto a transformações. Nas palavras do pensador russo, “do oceano instável e mutável da ideologia afloram, nascem gradualmente as inumeráveis ilhas e continentes dos sistemas ideológicos: a ciência, a arte, a filosofia, as teorias políticas.” (2013, p. 151). Temos então que, desde o âmbito íntimo até o seio de sociedades inteiras, existe um componente ideológico constitutivo vital cujo refinamento está diretamente ligado ao desenvolvimento social, político, econômico, ético e cultural de sujeitos e sociedades. E como os meios sócio-culturais são plurais, heterogêneos e se encontram em constante mudança, as concepções sobre tais meios se diversificam e evoluem ao sabor dessas transformações, de modo que sistemas de pensamento tão opostos como o socialismo e o liberalismo, por exemplo, podem tomar forma e coexistir. 

Como sustenta Volochinov, em Marxismo e filosofia da linguagem, “a palavra é a base, o esqueleto da vida interior.” (2018, p. 121) e, na qualidade de “signo ideológico par excellence” (2018, p. 127 – itálicos originais), também faz de todos nós sujeitos ideológicos por excelência, uma vez que nos constituímos pela interação sígnica. Por extensão, tudo o que construímos adquire caráter ideológico, pois todo ato humano se dá a partir de um dado lugar social a partir do qual os sujeitos julgam todas as coisas de que se apercebem ao seu redor, inclusive a si próprios. Portanto, em qualquer espaço, tempo ou circunstância em que o homem se fizer presente, a ideologia será aspecto constitutivo fundamental. 

A falácia da não-ideologia 

Voltando-nos novamente aos enunciados de Bolsonaro, chegamos à percepção de que a pretensa isenção ideológica do seu mandato é simplesmente um contrassenso. Uma vez confrontadas com os postulados de Volochinov, nenhuma das suas declarações acerca da ideologia se sustentam, já que a sua simples aspiração por um governo “livre de amarras ideológicas” já implica por si só em um posicionamento de natureza ideológica. Na sua limitação intelectual, o presidente parece desconhecer o fato de que os seus juízos sobre o país, a política, a economia, a sociedade, os costumes, a moral, entre muitas outras coisas, são tecidos a partir da conjuntura em que se constituiu como o sujeito alinhado a idéias antidemocráticas e discriminatórias que é. Tais idéias, por sua vez, são socialmente balizadas, sendo difundidas, acatadas e partilhadas por aqueles que, como ele, veem em uma agenda de extrema direita a solução ética de que o Brasil deve se servir. 

Ao combater ferrenhamente toda possibilidade de debate em que ideias divergentes das suas possam ter voz, Bolsonaro se contradiz ao impor uma governança na qual torna evidente o seu viés ideológico de extrema direita, conhecidamente autocrático, xenófobo, elitista, fundamentalista e reacionário. Assim, compreendemos ser impossível que o seu mandato seja ideologicamente isento, já que ele consiste na materialização de um projeto de poder com convicções muito bem estabelecidas sobre o país, sobre o seu povo e sobre como governá-lo. 

Diante das questões apresentadas, entendemos, portanto, que, diferentemente da noção expressa pelos enunciados do presidente de que a ideologia é um atributo da esquerda e de que seu governo é desprovido dela, a forma como conduz o país nada mais é do que a execução de um “programa de governo” que destoa diametralmente das ideias defendidas pela esquerda. Logo, vivemos sob um governo ideologicamente alinhado à direita, um governo que se pauta em convicções que, embora contrárias às da esquerda, são tão ideológicas quanto estas às quais se opõem, afinal, o governo executa um plano baseado em certa visão avaliativa de mundo. 

Referências 

AGÊNCIA BRASIL. Veja a íntegra do discurso de Bolsonaro na Assembleia Geral da ONU, 2019. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/politica/noticia/2019-09/presidente-jair-bolsonaro-discursa-na-assembleia-geral-da-onu. Acesso em: 05 out. 2021. 

BOLSONARO, J. M. A questão ideológica é tão, ou mais grave, que a corrupção no Brasil. São dois males a ser combatido. O desaparelhamento do Estado, e o fim das indicações políticas, é o remédio que temos para salvar o Brasil. [s.l.], 2 out. 2018. Twitter: @jairbolsonaro. Disponível em: https://twitter.com/jairbolsonaro/status/1047073236591235074?ref_src=twsrc%5Etfw% 7Ctwcamp%5Etweetembed%7Ctwterm%5E1047073236591235074%7Ctwgr%5E%7C twcon%5Es1_&ref_url=https%3A%2F%2Fd-35434161223180933480.ampproject.net %2F2109102127000%2Fframe.html. Acesso em: 05 out. 2021.

FÓRUM. Questão ideológica é muito mais grave que a corrupção, diz Bolsonaro, 2018. Disponível em:  https://revistaforum.com.br/politica/questao-ideologica-e-muito-mais-grave-que-a-corru pcao-diz-bolsonaro/. Acesso em: 05 out. 2021. 

PLANALTO. Discurso do presidente Jair Bolsonaro no Fórum Econômico Mundial 2019. 2019. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=wx5WuUyKcQo. Acesso em: 25 out. 2021. 

FOLHA DE SÃO PAULO. Leia a íntegra do discurso de Bolsonaro na cerimônia de posse no Congresso, 2019. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/poder/2019/01/leia-a-integra-do-discurso-de-bolsonaro na-cerimonia-de-posse-no-congresso.shtml. Acesso em: 05 out. 2021. 

VOLÓCHINOV, V. N. A construção da enunciação e outros ensaios. São Carlos: Pedro & João Editores, 2013. 

VOLÓCHINOV, V. N. Marxismo e filosofia da linguagem: problemas fundamentais do método sociológico da ciência da linguagem. Trad., notas e glossário de Sheila Grillo e Ekaterina Vólkova Américo. Ensaio introdutório de Sheilla Grillo – São Paulo: Editora 34, 2018.

A ideologia patriarcal no caso Jessé Lopes-Marco Antonio Heredia Viveros

Marana Luísa Tregues Diniz

No dia 31 de agosto de 2021, o deputado estadual Jessé Lopes (PSL-SC), famoso por sua defesa ferrenha às pautas bolsonaristas, como o porte indiscriminado de armas para civis e o uso de violência tanto estatal como individual para o combate ao crime em detrimento dos direitos humanos e fundamentais (Figura 1), compartilhou nos stories de sua conta de Instagram uma foto ao lado de Marco Antonio Heredia Viveros (Figura 2), condenado em outubro de 2002 pela dupla tentativa de homicídio contra sua esposa à época, Maria da Penha Maia Fernandes, em 1983, inicialmente por meio arma de fogo simulando um assalto, fato que a deixou paraplégica, e depois por choques elétricos no chuveiro – o que resultou, posteriormente, na criação da Lei 11.340/2006 de proteção da mulher contra violência doméstica e familiar –, afirmando, após  quase 40 anos do crime e 20 anos de lutas pelo julgamento justo do processo e decorrente condenação[1], que a versão de Heredia para os fatos seria “no mínimo, intrigante”.

Figura 1: Jessé Lopes defendendo o porte de armas e pena de morte no combate ao crime em seu perfil oficial do Facebook

Fonte: https://m.facebook.com/jesselopesoficial/photos/a.446564089123656/818986535214741/?type=3&source=57

Figura 2: Jessé Lopes ao lado de Marco Antonio Heredia Viveros em seu perfil oficial no Instagram

Fonte: https://www.poder360.com.br/brasil/deputado-diz-que-versao-de-ex-marido-de-maria-da-penha-e-intrigante/

Inicialmente, poderia parecer estranha a aceitação pelo deputado Jessé Lopes, defensor da pena de morte para criminosos, a aceitabilidade amigável de um condenado por um crime violento, como o de tentativa de homicídio, em seu gabinete para ouvida de sua versão do caso, uma vez que a culpabilização imediata, bem como execução sumária, inclusive de suspeitos, é recorrente no discurso bolsonarista – havendo o Presidente Jair Bolsonaro defendido, em entrevista com Leda Nagle, que “bandidos” sejam mortos na rua “igual barata” –, de modo que a abertura para a versão de Marco Antonio Heredia Viveros pelo deputado, poderia aparentar uma sinalização a uma posição ideológica oposta à sua, de defesa a uma postura pró-direitos humanos e dialógica, visando à maior compreensão da posição do outro pelo eu, por meio do que Bakhtin identificaria como o movimento exotópico de volta para o eu, para análise em planos ético e cognitivo (BAKHTIN, 1997, p. 46), após sua colocação no lugar do outro por meio do excedente de visão.

Entretanto, não é o caso, uma vez que o deputado, ao ser questionado, em sua conta do Instagram, sobre sua escolha em receber um criminoso condenado em seu gabinete, respondeu que o fazia tendo em vista que “o maior inimigo desse cara são as feministas” e afirmando não confiar em feministas, de modo que teria “curiosidade de ouvi-lo sim” (Figura 3). A ideologia dominante bolsonarista, ainda que superficialmente se coloque como contrária à criminalidade violenta, não o faz de forma generalizada, mas em benefício de um grupo social específico detentor de uma determinada característica de classe, raça, gênero e orientação sexual, seja ele o composto pelo homem, branco, de classe média alta, o que torna sua ideologia classista, racista e patriarcal, transformando indivíduos não detentores das referidas características e que opõem a essa ideologia, como pobres, não-brancos, mulheres e LGBTQIA+, em inimigos potenciais e, consequentemente, vítimas das violências bolsonaristas.

Figura 3: Jessé Lopes afirmando “não confiar em feministas” em sua conta do Instagram

Fonte: https://www.poder360.com.br/brasil/deputado-se-justifica-depois-de-postagem-com-ex-marido-de-maria-da-penha/

Desse modo, cumpre frisar que Volóchinov, em Marxismo e Filosofia da Linguagem, destaca que todas as “formas de interação discursiva estão estreitamente ligadas às condições de dada situação social concreta, e reagem com extrema sensibilidade a todas as oscilações do meio social” (VOLÓCHINOV, 2018, p. 108-109), de forma que os valores sociais e ideológicos partilhados pelo grupo a que pertencem os sujeitos do discurso estão relacionados ao seu nível de envolvimento com o enunciado discursivo e, consequentemente, com sua significação para o interlocutor. No mesmo sentido, Saffioti afirma, em relação à violência contra a mulher, que a desigualdade entre homens e mulheres não é natural, dada, mas construída por uma tradição cultural, pelas estruturas de poder e pelos agentes envolvidos na trama das relações sociais (SAFFIOTI, 2004, p. 71).

Assim, na situação apresentada, envolvendo o emblemático caso de violência doméstica contra Maria da Penha, resultante em legislação de extrema relevância para o combate da violência de gênero, é, portanto, compreensível que a posição ideológica do deputado bolsonarista Jessé Lopes se identifique mais com o agressor do que com sua vítima, por se coadunar com a dos indivíduos dentro de seu grupo social determinado, em uma época e contexto determinado, e que partilham de seus valores ideológicos patriarcais, de violência contra mulheres, e excludentes.

De modo semelhante, também não causa surpresa que, após a repercussão negativa de sua postagem em grupos ideológicos distintos, resultante em uma manifestação formal de repúdio pela Secretaria da Mulher da Câmara dos Deputados, o deputado estadual, mesmo apresentando justificando alegando a inexistência de corroboração de sua parte com a posição de Marco Antonio Heredia Viveros, em vídeo postado em seu perfil do Instagram, no dia 01 de setembro de 2021, continue reproduzindo sua fala anterior nos comentários.

REFERÊNCIAS:

BAKHTIN. M. Estética da Criação Verbal. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1997.

CÂMARA DOS DEPUTADOS DO BRASIL. Secretaria da Mulher repudia postagem relacionada à violência sofrida por Maria da Penha. Institucional, Secretarias, Secretaria da Mulher, on-line, 02 set. 2021. Disponível em: https://www2.camara.leg.br/a-camara/estruturaadm/secretarias/secretaria-da-mulher/noticias/secretaria-da-mulher-repudia-postagem-relacionada-a-violencia-sofrida-por-maria-da-penha-1. Acesso em: 25 de set. de 2021.

COM EXCLUDENTE DE ILICITUDE, ‘bandidos vão morrer igual barata’, diz Bolsonaro. PODER 360, Governo, on-line, 05 ago. 2019. Disponível em: https://www.poder360.com.br/governo/com-excludente-de-ilicitude-bandidos-vao-morrer-igual-barata-diz-bolsonaro/. Acesso em 25 set. 2021.

DEPUTADO DIZ QUE “versão” de ex-marido de Maria da Penha é “intrigante”. PODER 360, Brasil, on-line, 31 ago. 2021. Disponível em: https://www.poder360.com.br/brasil/deputado-diz-que-versao-de-ex-marido-de-maria-da-penha-e-intrigante/. Acesso em 25 set. 2021.

DEPUTADO JESSÉ LOPES. Nota ao Público. Santa Catarina, Paraná. 01 set. 2021. Instagram: @deputadojesselopes. Disponível em: https://www.instagram.com/tv/CTSU8VqNRHl/. Acesso em 25 set. 2021.

DEPUTADO SE JUSTIFICA depois de postagem com ex-marido de Maria da Penha. PODER 360, Brasil, on-line, 01 set. 2021. Disponível em: https://www.poder360.com.br/brasil/deputado-se-justifica-depois-de-postagem-com-ex-marido-de-maria-da-penha/. Acesso em 25 set. 2021.

LOPES, Deputado Jessé. Por que bandido não rouba na favela?. 27 dez., 2019. Facebook: usuário Facebook. Disponível em:  https://m.facebook.com/jesselopesoficial/photos/a.446564089123656/818986535214741/?type=3&source=57. Acesso em 25 set. 2021.

SAFFIOTI, H. I. B. Gênero, patriarcado, violência. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2004. (Coleção Brasil Urgente)

VOLÓCHINOV, V. N. Marxismo e filosofia da linguagem. Problemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem. 2. ed. Rio de Janeiro: 34, 2018.


[1] O processo que se encontrava parado há décadas foi retomado após denúncia à Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA). Esse fato, além das evidências de violência contra a mulher sistemática no Brasil, fez com que a OEA responsabilizasse o Estado brasileiro pelas referidas violações aos direitos humanos, por omissão, no caso de Maria da Penha, fazendo com que sua história se tornasse um marco, de modo a ser criada, em 2006, a Lei Maria da Penha (Lei 11.340/2006), sancionada pelo então Presidente Luís Inácio Lula da Silva, que retirava a condição de crime de menor potencial ofensivo dos casos de violência doméstica contra mulher que não davam cadeia.

(Moro)minions: uma breve reflexão dialógica de um post no Facebook

Natasha Ribeiro de Oliveira

Temos estudado, desde o início de 2018, ano de eleição presidencial no Brasil, o que se tem chamado de “bolsominions” (OLIVEIRA, 2020; PAULA e OLIVEIRA, 2020) e a forma de produção, circulação e recepção deste signo ideológico na rede social Facebook. Brevemente, compreendemos “bolsominions” como um signo ideológico (VOLÓCHINOV, 2017 [1929]) que utiliza uma situação sócio-histórica (uma figura política em um determinado espaço-tempo: o Brasil dos anos 2018 em diante) para criar uma crítica, por meio da sátira/do escárnio, a partir de personagens amplamente conhecidas e consumidas, não só aqui, mas no mundo: os minions, dos filmes Meu Malvado Favorito (2010, 2013, 2015 e 2017). 

A crítica, ferrenha, mas também risível, é feita aos apoiadores fiéis de Jair Bolsonaro que, tal qual os minions, seguem um malvado favorito (no filme, esta figura de chefe-vilão é Gru) e tentam agradá-lo a todo custo, pois o seu bem-estar e a sua felicidade são mais importantes até do que a própria felicidade do grupo (o famoso trabalhador que defende e dá a vida pelo patrão). Está feita, assim, a crítica que, dentre tantos formatos, encontra nas redes sociais, como o Facebook, uma forma de circular socialmente, em ambiente on-line. Os posts, que ocorrem no formato de fotomontagem, memes, charges etc. estabelecem uma relação estreita com acontecimentos atuais, portanto, não é estranho o caráter efêmero que esses posts assumem, altamente curtidos e compartilhados em um período e facilmente esquecidos logo em seguida, para que seja dada vida a novos posts, relativos a novos acontecimentos. 

Dito isso, refletimos, brevemente, sobre um acontecimento que marcou a cena política do país: o rompimento da aliança entre Bolsonaro e Moro. Como acompanhado no cenário político, Jair Bolsonaro e Sérgio Moro, ex-ministro da Justiça, caminhavam alinhados e aliados enquanto os interesses próprios de cada um não entravam em conflito. Quando ocorreram consecutivos desentendimentos, as duas figuras políticas desfizeram a união para cada um seguir seu caminho, em meados de maio de 2020. A questão, aqui, não é retomar, historicamente, os detalhes desta aliança política, mas refletir sobre como as duas figuras, antes aliadas, tornaram-se desalinhadas e, como consequência, os atritos de ambos desencadeou na subdivisão do grupo que, até então, era unicamente denominado “bolsominions” para dar vida a um novo signo ideológico: os “morominions”, a partir de um post de Facebook.

Os “morominions” são sujeitos que, como decorrência dos atritos entre Bolsonaro e Moro,  decidiram apoiar esta última figura política, por acreditarem em seus valores e ideais. Podemos compreender que os morominions são uma subdivisão dos bolsominions, logo, ex-bolsominions. Perderam a associação a Bolsonaro para ganharem a carga valorativa relacionada a Moro, contudo, não podemos deixar de observar, como a própria constituição sígnica materializa, a valoração presente em “minions”, pois continuam a ser minions, mas agora com um novo malvado favorito a quem devotam seus esforços e defesas: Moro – por isso, (moro)minions.  Podemos perceber que o signo ideológico surge motivado, portanto, por um acontecimento político, histórico e social e liga-se de maneira estreita às situações enunciativas em que é utilizado. 

Diferente do que temos estudado em nossa tese de doutorado (a relação entre os signos “bolsominions” e “petralhas”), no caso da presente reflexão, vemos um rompimento e subdivisão dentro de um mesmo grupo, antes unido. Interessante pensar no embate dentro de um mesmo grupo pois, a partir disso, podemos analisar a imagem abaixo, objeto da presente reflexão, retirada de uma página de Facebook intitulada “Bolsominions”, bastante ativa na produção e circulação de críticas feitas aos ideais conservadores dos apoiadores de Jair Bolsonaro. No post, podemos ver como este rompimento entre Bolsonaro e Moro foi recebido e elaborado pelo grupo de oposição, sendo, portanto, criada uma crítica em formato de fotomontagem como um posicionamento avaliativo da situação – a vida em ato, o enunciado materializado:

Figura: Bolsominions e Morominions

Fonte: Facebook “Bolsominions” (https://www.facebook.com/osbolsominions/photos/a.180646935828566/653868415173080. Acesso em: 15 set 2021).

Situado de maneira concreta, por ser histórico e cultural, o enunciado materializa, por meio da linguagem em suas mais diferentes dimensões, valorações que são próprias de quem o produz. Logo, os materiais, no caso do post, verbal e visual, significam de maneira integrada, como vemos nos estudos desenvolvidos por Paula e Luciano (2020) – assim como o vocal que, mesmo não materializado, em potência pode ser depreendido como significativo. No post, vemos dois minions em imagem (como estão nos filmes) e dois enunciados verbais que, juntos, em ato, se complementam. Na parte superior da imagem, o verbal “Agora temos”, em caixa alta e na coloração preta, nos indica uma situação de novidade, pelo advérbio “agora”, compartilhada por uma coletividade, marcada pelo verbo “ter” flexionado na 3ª pessoa do plural. As duas imagens de minions, um normal e outro do mal (que, no filme, é um minion normal que toma um antídoto PX-41 que o transforma em um “monstro” aos olhos dos outros minions que não foram contaminados pela mutação), mostram a situação de novidade não relacionada aos “bolsominions”, marcada pelo minion com uma banana na mão, oferecendo ao outro, mas refere-se ao “morominions”, que é a subdivisão do grupo maior e anterior, assim como ocorre no filme.

A diferença entre arte e vida – ou entre bolsominions e morominions, é que os apoiadores de Bolsonaro e Moro não se separaram por conta de um antídoto manipulado e consumido por uma parcela do grupo, mas em razão do desalinhamento entre as duas figuras políticas, o que justificou a criação de uma nova modalidade de servo fiel, que não mais obedece ao Bolsonaro, mas agora ao Moro, o que demonstra uma impossibilidade da existência dos dois contrários como parte de um mesmo grupo, dada a crise vivenciada pelos dois grupos. Interessante pensar, nessas duas imagens materializadas, em como um grupo passa a enxergar outro e, aqui, temos um movimento complexo: o grupo que critica os bolsominions e produz enunciados risíveis sobre o grupo, ao mesmo tempo em que se coloca no lugar dos bolsominions e projeta como eles enxergam os morominions (como minions do mal), como forma de demonstrar que os morominions, enquanto outro-para-mim (BAKHTIN, 2010 [1920-24]) para os bolsominions, se tornaram monstruosos, com um olhar torto, sorriso torto, despenteados e desproporcionais. 

Ao mesmo tempo, também podemos ver a visão dos que criticam ambos os grupos, bolsominions e morominions, e avalia a situação de modo a enunciar que, por agora ter os dois grupos, os morominions (dada a caracterização imagética do post) sejam piores do que os bolsominions (também dada a caracterização imagética do post), pois dentre os dois minions, o relacionado a Bolsonaro possui uma caracterização imagética mais branda e “normal” do que o relacionado a Moro – com isso, a situação é avaliada de modo a compreender que ambos continuam sendo minions, seguidores fiéis de malvados favoritos, mas que um grupo é “pior” do que o outro, pela forma como foram representados nas imagens retiradas dos filmes e contextualizadas em relação à enunciativa fílmica.

No processo morfológico de produção, os dois signos ideológicos utilizam a junção para a formação do termo: unem parte ou a totalidade do sobrenome da figura política, “Bolso[naro]” e “Moro”, justaposto ao nome das personagens animadas, “minions”. Entendemos como signo ideológico pois, de acordo com Volóchinov, “[…] tudo o que é ideológico possui uma significação: ele representa e substitui algo encontrado fora dele, ou seja, ele é signo”  (VOLÓCHINOV, 2017 [1929], p. 91 – grifo do autor), logo, tudo o que possui significação/sentido é passível de refletir e refratar o mundo à sua maneira. Os novos sentidos atribuídos aos signos são justamente o que os tornavam vivos, dinâmicos, em constante evolução, pois próprios da linguagem, que é ideológica por excelência.

Moro, amplamente utilizado pelos seus apoiadores como um símbolo de combate à corrupção, representa este ideal para aqueles que optam por segui-lo em meio ao rompimento com Bolsonaro. Ainda que não seja a pretensão da reflexão, de mostrar quais são os ideais de cada figura, limitamo-nos a pensar nesta imagem que o Moro tem na política brasileira pois é como ficou popularmente conhecido, principalmente nos desdobramentos da Lava-Jato (quando, ainda, tinha seus ideais políticos alinhados com os de Bolsonaro). Interessante observar, portanto, em como a caracterização dos apoiadores de Moro torna-se monstruosa e do mal a partir do momento em que se separa dos bolsominions, como um grupo de oposição, isto na visão de quem é o outro-para-mim, pois se torna um monstro a partir do momento em que não se filia mais aos meus propósitos, logo, o monstro é o outro, não o eu.  

Contudo, mesmo que a visão seja de um grupo desmembrado e subdividido, não podemos nos esquecer que a crítica ainda continua a mesma, pois é feita a partir de uma página que produz e circula posts de crítica e denúncia contra Bolsonaro e tudo o que representa apoio a este governo. Não importa quem é o minion e quem é o minion do mal, ambos os papéis poderiam ser facilmente intercambiados, pois o interesse na consolidação dos pensamentos de direita e extrema-direita no governo do país são próximos e falam diretamente às duas figuras políticas. Logo, ainda que tenham optado por caminhos diferentes, Bolsonaro e Moro, assim como bolsominions e morominions ainda compartilham (e continuarão compartilhando) o ideal de combate às ideias voltadas ao avanço da democracia, direito às minorias e manutenção de direitos básicos sob a bandeira verde amarela, que camufla o discurso de ódio, o fim de ações afirmativas e a corrupção velada-mas-que-de-velada-não-tem-nada. Bolsominions, morominions ou ex-bolsominions, não importa: continuam sendo minions.

Referências bibliográficas

BAKHTIN, Mikhail Mikhailovich. Para uma filosofia do ato responsável. [Tradução aos cuidados de Valdemir Miotello & Carlos Alberto Faraco]. São Carlos: Pedro & João Editores, 2010 [1920-24].

PAULA, Luciane de; OLIVEIRA, Natasha Ribeiro de. (2020). Minions nas telas e bolsominions na vida: uma análise bakhtiniana. Letrônica, 13(2), e36198. Disponível em: https://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/letronica/article/view/36198  DOI:  https://doi.org/10.15448/1984-4301.2020.2.36198

PAULA, Luciane de; LUCIANO, José Antonio Rorigues. A filosofia da linguagem bakhtiniana e sua tridimensionalidade verbivocovisual. Estudos Linguísticos. São Paulo, v. 49, n. 2 (2020), p. 706-722. Disponível em: https://revistas.gel.org.br/estudos-linguisticos/article/view/2691. DOI: https://doi.org/10.21165/el.v49i2.2691.

OLIVEIRA, Natasha Ribeiro de. A febre amarela “minions”: uma análise bakhtiniana. — 2020 282 f. Dissertação (Mestrado em Linguistica e Lingua Portuguesa) — Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, Faculdade de Ciências e Letras (Campus Araraquara).

VOLÓCHINOV, Valentin. Marxismo e filosofia da linguagem: problemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem; tradução, notas e glossário de Sheila Grillo e Ekaterina Vólkova Américo; ensaio introdutório de Sheila Grillo – São Paulo: Editora 34, 2017 [1929].

Reflexões iniciais sobre a relação da linguagem concretista e a filosofia da linguagem bakhtiniana

Rafaela dos Santos Batista

O movimento concretista, iniciado em 1950 pelo grupo Noigandres (Augusto de Campos, Haroldo de Campos e Décio Pignatari), renovaram a tradição poética no esteio mallarmeano de superação do verso e estrutura. Ao verem a palavra com personalidade e habilidade de se manifestar de diferentes maneiras, a poesia concreta recebe a linguagem como um lugar de não sepultamento da ideia, por isso, vai ao centro da palavra para a viver (DE CAMPOS, 1975). A linguagem entendida e empregada é, como eles denominam com o termo joyceano, verbivocovisual, porque:

– o poeta concreto vê a palavra em si mesma – campo magnético de possibilidades – como um objeto dinâmico, uma célula viva, um organismo completo, com propriedades psicofisicoquímicas tacto antenas circulação coração: viva. (DE CAMPOS;  1975, p.44)

Com essa percepção, o movimento concretista repensa a poesia nessa linguagem que leva em conta os âmbitos verbais, visuais e sonoros, sem privilégio de nenhuma dimensão, todas são partes da criação poética e essa é igualada a uma construção matemática. Assim, essa vanguarda radicaliza a tradicional poesia versificada e linear, que passa a ser explicada pela estrutura onde forma e conteúdo se ligam na linguagem que fala por/de si própria, pois não há eu-lírico e a palavra é trabalhada na máxima potência.

A construção matemática do poema e a posição de cada palavra, com suas diferentes cores, nada tem de arbitrária. Não é apenas focada na expressão de um apelo visual, mas demonstra em si uma profunda relação entre a visualidade e o conteúdo. A discrepância entre forma e conteúdo, que estamos acostumados a observar numa concepção poética mais canônica, não tem espaço no concretismo, pois a profunda intimidade entre eles transforma o poema em uma unidade icônica e verbivocovisual. Podemos analisá-lo em suas formas, espaços em branco, em sua semântica não tradicional, em sua não linearidade. Todos esses elementos são parte fundamental da poesia concreta e, consequentemente, fazem parte de seu processo de criação. (CAMPOS, 2019, p. 109)

A perspectiva bakhtiniana no que tange a linguagem, se centra na noção do enunciado composto por signos ideológicos que refletem e refratam concepções de mundo na/pela linguagem constituída por esses signos. A palavra é o lugar de realização dos fios ideológicos de todas as áreas da comunicação social e é também o indicador das mudanças sociais (VOLÓCHINOV, 2017). A dialogia, fio condutor do pensamento do Círculo russo, mostra a relação de alteridade entre o sujeito (eu/outro), a gerar trocas ideológicas em embate vivo, a linguagem ideológica faz dos enunciados arena de luta de ideias, dessa forma, ideologias surgem nos sujeitos e são tomadas por eles como realidade absoluta, em seus atos responsáveis e em suas vozes sociais.

Somado a isso, os enunciados ideológicos não são apenas verbais para o grupo bakhtiniano, visto que “Qualquer fenômeno ideológico sígnico é dado em algum material: no som, na massa física, na cor, no movimento do corpo e assim por diante” (VOLÓCHINOV, 2017, p. 94).  Mesmo que não focalizada em outras dimensões, há indícios de que vão além do verbal e se estendem para o vocal e visual. Na filosofia da linguagem do grupo bakhtiniano, existe uma visão de certa linguagem geral, estabelecida pós-reuniões do Círculo (entre 1959-1961):

Todo sistema de signos (isto é, qualquer língua), por mais que sua convenção se apoie em uma coletividade estreita, em princípio sempre pode ser codificada, isto é, traduzido para outros sistemas de signos (outras linguagens); consequentemente, existe uma lógica geral dos sistemas de signos, uma potencial linguagem das linguagens única(que, evidentemente, nunca pode vir a ser uma linguagem única concreta, uma das linguagens). (BAKHTIN, 2011, p. 311)

A materialização dos enunciados coloca a linguagem geral verbivocovisual no amparo das especificidades da esfera de comunicação discursiva, com regras e objetivos limitadores da construção enunciativa. A verbivocovisualidade não é explicitada no material externalizado, mas aparece nas marcas enunciativas, como também pode se manifestar de forma clara nos signos interiores ao passo da compreensão ativa que se apoia nas marcas dos enunciados, logo, a significação de qualquer enunciado acontece a partir da relação interior e exterior que revelam a verbivocovisualidade da linguagem, base que recobre os enunciados desde a formulação até a construção interativa de sentido à luz dos traços entonacionais. 

Disso, Paula (2017) propõe essa visão teórico-analítica verbivocovisual na seara bakhtiniana, que avançam esse estudo nessa forma metafórica de encarar a linguagem do Círculo: ao entender a próto-linguagem alargada e também ao perceber a materialidade enunciativa da linguagem, que pode ser tridimensional, a depender do projeto arquitetônico autoral, genérico e do estilo que reflete e refrata voz social, que a filosofia bakhtiniana da linguagem é ampliada.

Começa-se a pensar a relação entre os dois campos aqui citados, o concretismo entende a linguagem de forma parecida que o Círculo de Bakhtin, apesar das diferenças grupais. Com influências parecidas, o movimento concreto trabalhou com essa possível linguagem geral na sua criação verbivocovisual que desafia a compreensão do leitor que precisa atuar na leitura, numa espécie de “adentramento” que o faz participar da linguagem e da criação poética, em certa relação alteritária eu/outro.

Isso é visto no poema Rever, com a primeira versão em 1972, mas com diversas releituras em múltiplos suportes. Esse poema conta com a palavra “rever” escrita com o “E” e “R” finais invertidos. O entendimento se dá na própria forma do poema, ou seja, na palavra palíndromo, que ao ler de trás para frente, ainda é “rever” e as letras invertidas mostram a relação da forma com o que significa.

Figura 1 – Poema Rever (Augusto de Campos – 1972)

Fonte: retirado da internet. Disponível em: https://augustoscampos.wordpress.com/2017/06/23/analise-obra-rever-de-augusto-dos-campos/.

No clip-poema, do CD-ROM do livro Não, a relação palindrômica é potencializada no círculo dividido ao meio pelas cores vermelho e verde, com “rever” espelhado. No vídeo, o movimento de ir e voltar, em rotação, e para frente e para trás, com o tamanho do círculo diminuindo e aumentando, trazem no verbal e visual a leitura em sentido contrário e normal que a palavra oferece. As cores, em alguns momentos, são invertidas à luz da palíndromo, e as letras em branco se transformam em preto. Há certa continuidade no recurso de looping, o poema nunca termina, fica em constante retorno que alude a palavra rever e sua leitura. Ainda, há a sonoridade do poema que representa o movimento do círculo nessa relação palindrômica.

Figura 2 – clip-poema Rever (2003)

Fonte: retirado do Youtube. Disponível em: https://youtu.be/MVN-RL4Oj5k. [1]

Tais reflexões precisam ser aprofundadas, mas fica claro que há diálogo entre as noções de linguagem, portanto, a poesia concreta pode ser analisada no campo bakhtiniano a pensar a linguagem verbivocovisual.

Referências

BAKHTIN. M. Estética da Criação Verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2011.

CAMPOS, Raquel Bernardes. Entre vivas e vaias: a visualidade concreta de Augusto de Campos. 2019.

DE CAMPOS, Augusto. Teoria da poesia concreta: textos críticos e manifestos, 1950-1960. Livraria Duas Cidades, 1975.

DE CAMPOS, Augusto. Não poemas. Perspectiva, 2003.

PAULA, L. de. Verbivocovisualidade: uma abordagem bakhtiniana tridimensional da linguagem. Projeto de Pesquisa em andamento. Assis: UNESP, 2017. Mimeo, s/d.

VOLOCHÍNOV, V. Marxismo e filosofia da linguagem. Problemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem. Rio de Janeiro: 34, 2017.


[1] Sequência disponível em: 00:01, 00:02,00:04,00:11.

A “chegada” e a “partida”: a linguagem como potencializadora da vida

Tatiele Silva

Os vínculos entre os sujeitos são estabelecidos por meio das diferentes manifestações de linguagem. A linguagem e a língua propiciam que ocorram interações sociais essenciais à comunicação e organização social. No âmbito das relações sociais, a língua permite os sujeitos interagir, construir valorações e atribuir sentidos ao mundo e sobre as vivências e, desse ponto de vista, conforme os estudos do Círculo de Bakhtin, Medviédev, Volóchinov, o vínculo entre a língua e a linguagem com a sociedade é indissociável. Esse vínculo estreito implica se pensar que a língua e a linguagem são essenciais para o processo de interação social entre sujeitos.

Ao se levar em consideração os aspectos mencionados anteriormente, retoma-se o enunciado “A chegada” (2016) com a finalidade de refletir sobre a língua e a linguagem como potencializadoras da vida e das interações humanas. No enunciado fílmico em questão, uma linguista faz parte de uma equipe que tem como objetivo mediar a comunicação entre humanos e os visitantes extraterrestres, especificamente, com o intuito de descobrir o motivo pelo qual eles aterrissaram na terra.

Nesse percurso, podemos observar como a linguista Louise passa a conhecer a língua falada pelos visitantes e como a comunicação entre o ser humano e o extraterrestre vai ocorrendo à medida que se conhece a língua por meio do processo de interação no qual a comunicação é estabelecida. Embora esse percurso seja interessante e muito rico, abordamos uma questão particular ao final do filme, quando é revelado que esses visitantes oferecem como presente a sua língua para os habitantes da terra.

A caracterização apresentada no enunciado acerca da “língua como um presente”, pensada além do horizonte do enunciado fílmico, promove a reflexão de como a vida é potencializada pela língua e pela linguagem. As relações são possíveis e mediadas pela linguagem, nela diferentes tipos de enunciados emergem, ganham forma e se transformam em um ciclo mobilizador e potencializador da vida e das relações humanas. Esse “presente” pode ser pensado como a “chegada” e a “partida” de como atribuímos sentido ao mundo e a nossa existência por meio das relações humanas mediadas pela língua e pela linguagem. A partir desse ponto de vista, a língua e a linguagem podem ser compreendidas como um “presente” ao considerarmos que todo o processo de vivência social é perpassado por ambas. O processo de valorar e construir sentidos no mundo é mediado pela língua e pela linguagem e, portanto, elas podem ser compreendidas, sob uma dada perspectiva, como a base e também produto das vivências sociais.

Referências

A CHEGADA. Direção de Denis Villeneuve. USA: Paramount Pictures, 2016. (116 min.)

BAKHTIN, M. M. Estética da criação verbal. Tradução de Paulo Bezerra. 6a Edição. São Paulo: Martins Fontes, 2011.

VOLÓCHINOV, V. A palavra na vida e a palavra na poesia. Tradução de Sheila Camargo Grillo e Ekaterina Vólkova Américo. Editora 34, 2019.

VOLÓCHINOV, V. Marxismo e filosofia da linguagem. Problemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem. Tradução de Ekaterina Vólkova Américo e Sheila Camargo Grillo. 2 ed. São Paulo: Editora 34, 2018 [1929].

Os relacionamentos amorosos baseados na propriedade

Rafael Junior de Oliveira

No presente texto, abordaremos a questão dos relacionamentos dentro de uma sociedade capitalista, apontando de que maneiras certas relações afetivas materializam, refletindo e refratando, relações trabalhistas, que objetificam as pessoas e, mais do que isso, as tornam possuidoras e parte da propriedade privada do outro. Faremos isso dialogando com os campos da filosofia da linguagem, da sociologia e da psicologia. 

O modelo neoliberal ganhou força na sociedade brasileira nos últimos anos, fato marcado, dentre outros eventos, pela ascensão da direita a partir de 2014. A desestatização de empresas, sob o pretexto de aumento da competitividade e de lucratividade, deixa claro que o mercado adoraria gerenciar suas próprias relações, independente das consequências sociais de tal gerenciamento, já que, se o objetivo é o lucro, os meios pelos quais ele é obtido não interessam aos donos do capital. Neste cenário, pessoas tornam-se objetos e relações amorosas se tornam contratos, o que pode ser visto nos próprios enunciados empresariais que permeiam tais relações afetivas: “invista na relação”, “faça acordos”, “crie metas para seus relacionamentos”.   

Quando se fala em relacionamento, a visão regente se constitui por um núcleo familiar, muitas vezes pequeno, se compararmos com séculos passados. A partir do momento em que as grandes famílias se dividiram, formando novos núcleos familiares, as relações afetivas foram modificadas. Se no século XX, o Brasil foi marcado pela chegada de estrangeiros, cujas famílias eram compostas por vários adultos (avôs, pais, filhos e netos etc) morando na mesma casa, o século XXI apresenta novas características. Com o avanço neoliberal, a ideia de privacidade e individualidade faz com que essas famílias se separem fisicamente, cada qual comprando novas casas e usufruindo particularmente de seus trabalhos. Assim, uma dada forma de conceber o trabalho se modificou, pois o indivíduo não trabalha em prol do crescimento da família, mas em prol do crescimento próprio, com objetivo de formar seu próprio patrimônio.   

Todo esse processo de formação impacta nas novas relações afetivas formadas, pois ainda que tais mudanças ocorram e novos valores sejam formados, a propriedade privada é indispensável, já que é através dela que o nível de sucesso do indivíduo que saiu do eixo central será medido. Além disso, espera-se socialmente que esse indivíduo estabeleça um novo eixo, isto é, uma nova família, sendo essa pressão ainda mais forte nas mulheres. Nesse sentido, não só os ganhos dessa nova família – que, diga-se de passagem, é formada legalmente por um padrão monogâmico-, são considerados propriedades privadas, mas a própria relação torna os componentes do relacionamento em mercadorias, isto é, em posse. Em linhas gerais, o processo de transmissão de valores pode ser representado pelo seguinte esquema.

Esquema 1.0 – A transmissão geracional da ideia de propriedade

Neoliberalismo                                   Família                                            Indivíduo 

Propriedade privada                 Propriedade privada                  Propriedade privada

Fonte: Autoria própria (2021)

Como mostrado no esquema 1.0, a ideia de propriedade privada penetra na construção da família, que, por sua vez, incute isso nos indivíduos, que, por consequência, farão o mesmo com seus filhos. Trata-se de um processo de mentalidade, que não só reflete uma dada concepção de propriedade, mas a refrata em virtude de determinados interesses. 

O semiolinguísta Patrick Charaudeau se debruçou nas relações sociais, afirmando que a premissa por trás das interações sociais são os “contratos sociais”, que regem as configurações enunciativas dos discursos. Com relação aos relacionamentos, precisamos nos questionar: Quais sujeitos criaram tal contrato? Que relações são estabelecidas?  De que maneira podemos modificá-las?

Segundo Engels (1984), a propriedade privada é marcada por uma relação de posse, aspecto destacado pelo autor ao discorrer sobre os diferentes modelos de família ao longo da história. Volóchinov (2017) contribui para a discussão ao dizer que quem cria tais relações, e suas consequentes construções sígnico-ideológicas, é a classe dominante, por meio da linguagem. Vale dizer que tal construção é feita sob diferentes argumentos, mas uma de suas finalidades é parecer genérica, ampla, enfim, neutra.  

Segundo a psicóloga Regina Navarro, especialista em relações amorosas, historicamente, existe, antes da relação de posse se formar, uma tendência monogâmica marcada pelas condições materiais que constituem os indivíduos. Via rede social, a psicóloga afirmou no dia 28 de maio de 2021:

Fonte: LINS (2021)

A colocação da autora se relaciona com o processo citado no esquema 1, mas alerta que, se não existe uma paridade entre ambos os envolvidos na relação, o que significa ter as condições de viver fora daquele relacionamento, a posse só funciona para um dos lados. Devidos às condições criadas ao longo do tempo, esta é a situação de muitas mulheres hoje, o que significa que apenas elas são objetos de posse, podendo os maridos realizarem diferentes atos que somente eles têm o direito, como é o caso das relações extraconjugais.

Com base na fala da psicóloga e tendo em vista o tema abordado, podemos analisar que a classe dominante, ao espalhar uma ideologia de que o(a) amado(a) é uma propriedade, mesmo que utilizando, por vezes, a palavra amor para fazer tal processo, instaura a mesma relação de exclusividade que uma empresa possui com relação aos seus funcionários e clientes. Ao assinar um contrato com uma operadora que presta serviços de internet, por exemplo, o cliente é fidelizado por um determinado período de tempo. Cabe destacar que o uso desse termo não é à toa e demonstra como a ideologia capitalista se materializa em diferentes relações.    

No entanto, é necessário apresentar alguns elementos importantes nesse processo da reificação da propriedade privada, pois o que pode parecer algo comum em um regime capitalista, pode ser alvo de lutas feministas, já que o capitalismo e o patriarcado são ambas ideologias reinantes na sociedade contemporânea. 

No caso de uma relação amorosa entre duas pessoas que vivem juntas, o que significa que constroem um patrimônio juntas, tal contrato, como postula Charaudeau (2004), é uma forma de fazer com que a propriedade privada permaneça no núcleo familiar, o que nem sempre foi assim. A luta feminista para que as mulheres tivessem direito a receber aposentadoria no caso da morte dos maridos e a ficar com os bens adquiridos com/do o mesmo levou anos e, ainda hoje, preenchem inúmeros processos no judiciário brasileiro. Essa relação de luta demonstra que, muitas vezes, a relação entre patriarcado e capitalismo não é miscível e que existe uma hierarquia entre um e outro, a depender da situação. Um exemplo disso pode ser encontrado no primeiro episódio da série What If…? da Disney, lançado em 11 de agosto de 2021, especificamente quando as opções sendo salvar o mundo ou desempoderar uma mulher – mesmo sendo uma super soldada-, o comandante do exército escolhe a segunda.

Além disso, o contrato do casamento, por exemplo, não é, de fato, muito diferente de um contrato empresarial, com assinatura e tudo mais. Bakhtin (1993, 56-57) afirma que a assinatura é um dos ato-reconhecimento da interação. No entanto, o autor também destaca que não é o conteúdo da obrigação que obriga a sua assinatura, mas o seu reconhecimento. Em outras palavras, no casamento e até na união estável, não é o conteúdo do documento assinado no cartório ou mesmo o conteúdo do dizer feito durante os votos que responsabiliza o sujeito, mas o seu reconhecimento. 

Nesse caso, o fazer parte da sociedade, cuja ideologia do amor romântico (como denomina Regina Navarro) é incutida nas pessoas desde criança, que é o importante, mesmo que isso signifique abdicar de seu próprio lugar enquanto sujeito, fundindo-se, devido às relações impostas pelo casamento monogâmico e neoliberal, com o outro. 

Deste modo, os votos de casamento e o juramento compelem, via linguagem oral e/ou escrita, muitas vezes, um dizer-fazer de um cônjuge em direção ao outro, no sentido conceitual que propõe Villarta-Neder (2018). Esse ato implica, às vezes nas entrelinhas, às vezes explicito no corpo do dizer, o que tal individuo deve ou não fazer após assinar tal contrato. A infidelidade, no sentido sexual, por exemplo, foi considerada crime por muito tempo, já que tais atos poderiam danificar a ideia de propriedade privada e seu consequente processo de transmissão geracional, pois outra pessoa poderia usufruir de uma propriedade alheia, resultando em perda de capital. 

Citamos, anteriormente, um exemplo (série animada) no qual o patriarcalismo sobrepujava o capitalismo, vejamos um exemplo inverso. Atualmente, o Estado, por meio da união estável, torna uma pessoa, que não faz parte do contrato de casamento, também dona de direitos em relação ao seu relacionamento com uma pessoa já casada. Esse tipo de consideração é muito importante, pois, em caso de separação e diante de uma sociedade que, como dissemos, ainda mantém determinadas relações patriarcais, sendo o homem o único responsável pelo sustento da casa, a mulher tenha direitos aos bens adquiridos durante aquele relacionamento. Isso demonstra o imbricamento entre as duas ideologias, explicitando, muitas vezes, as contradições entre elas.

De qualquer modo, seja via capitalismo, seja via patriarcalismo, cabe apontar que essas relações de posses, que vêm desde um plano maior, na relação entre classes e Estado, e penetra nas relações amorosas mais íntimas, como é o caso dos votos de casamento, merecem alguns destaques. 

Em uma relação de posse, nos dois sentidos discutidos nesse texto, o outro é clivado de diferentes elementos, sendo o principal deles a possibilidade de interação com outras pessoas, seja por ser propriedade privada, seja por ser submissa à palavra do outro. Tal impedimento também possui implicações para além das relações interpessoais, já que a traição, majoritariamente considerada como ato de ter relação sexual com outra pessoa fora do relacionamento, pode ser utilizada pela pessoa traída para dar entrada em um processo legal de indenização por danos morais. Tal ato, recorrente no meio jurídico, revela o aspecto do contratual no qual o relacionamento é constituído.

Do ponto de vista do sujeito e da ideologia, uma concepção de casamento, como a colocada aqui, é plenamente coerente com uma perspectiva ideológica conservadora e capitalista. No entanto, funcionamentos assim estão espalhados por toda a sociedade, em diferentes classes e gêneros, principalmente a ideia de posse, que mesmo em um relacionamento não monogâmico, como é o caso de um trisal ou quadrisal, ainda é possível compreender como o núcleo familiar regente de tal ideia se mantém. Nesses casos, por exemplo, a fidelidade sexual, apesar de ser regularmente pensada em relação a dois ou três cônjuges, ainda se mantém, pois qualquer relação fora desse núcleo constitui uma ameaça.

Por fim, as consequências de tais relações amorosa-capitalistas nos mostram como os signos ideológicos – destacamos aqui o da fidelidade, mas existem outros -, nos constituem e nos responsabilizam diante deles, pois não estão acabados ou fechados. Qualquer padrão de família, relacionamento, comportamento etc. vendido como único, muitas vezes tido como cultural, como é o caso da infidelidade conjugal por parte dos homens, é construído socialmente, ou seja, seu caráter de cultural é um processo de esvaziamento do signo, neutralizando-o, o que, de acordo com Volóchinov (2017), é um processo feito pela classe dominante. Se o signo de família pôde mudar, como constata Engels (1984), a relação de posse também pode. De acordo com as lives feitas pela psicóloga Regina Navarro, nas suas diferentes redes sociais, os sujeitos precisam explicitar e, quando quiserem, romper com os contratos nunca mencionados, como é o caso da monogamia, já que essa é um imperativo, isto é, um acordo nunca explicitado ou questionado. Seguindo uma perspectiva bakhtiniana, a partir do momento em que os sujeitos perceberem que eles interagem com os outros, mas nunca se fundem com esses, já que a empatia total é uma falácia, novas relações amorosas poderão ser constituídas, rompendo aspectos e dizeres(fazeres) que prejudicam a relação entre os SUJEITOS. NÃO SOMOS EMPRESAS!

Referências.    

BAKHTIN, M. Para uma Filosofia do Ato. Tradução de Carlos Alberto Faraco e Cristóvão Tezza de. Toward a Philosophy of the Act. Austin: University of Texas Press, 1993. 

CHARAUDEAU, Patrick. Visadas discursivas, gêneros situacionais e construção textual. In: In: MACHADO, I.L.; MELLO, R. (Org.). Gêneros: Reflexões em Análise do Discurso. Belo Horizonte: NAD/FALE/UFMG, 2004. p.13-41.

ENGELS, Friedrich. A origem da família, da propriedade privada e do Estado. 9ª edição. Rio de Janeiro: Ed, 1984.

LINS, R. N. O que você pensa disso? Deixe aqui nos comentários a sua opinião. Rio de Janeiro: 28 mai. 2021. Disponível em: https://www.instagram.com/p/CPbm3pYn_em/. Acesso em: 22 ago. 2021. 

______. Novas formas de amar. Editora Planeta do Brasil, 2017.

VILLARTA-NEDER, M. Dizeres e fazeres como enunciados: arquitetônica e sentidos para além dos textos. 2018 (Mimeo.).

VOLÓCHINOV, V. N. Marxismo e filosofia da linguagem: problemas fundamentais do método sociológico da ciência da linguagem. Trad., notas e glossário de Sheila Grillo e Ekaterina Vólkova Américo. Ensaio introdutório de Sheilla Grillo – São Paulo: Editora 34, 2017.