AS MAIS OUVIDAS NO BRASIL – CANÇÃO, SENTIDOS E MERCADO

Fábio Augusto Alves de Oliveira

Dados1 apontam para o crescimento do forró em rankings de streaming no Brasil. Segundo análise do G1, o sertanejo lidera as paradas, mas perde espaço para o forró nos últimos anos. Nesse estilo, destacam-se, entre outros, Os Barões da Pisadinha, duo musical mais tocado no primeiro semestre de 2021. Tendo em vista, então, esse crescimento, faço alguns apontamentos sobre a letra da canção Recairei2 interpretada pela dupla citada, discutindo o processo de superação amorosa. 

A presença em mais ouvidos, reproduzidos e tocados é importante, em sentido discursivo, para avaliar, analisar, estudar e compreender o que circula nas canções como valor, sentido e mercado. Pensando com o Círculo, é possível dizer que o enunciado, a canção, é repleto de significação que circula socialmente e se relaciona com outras canções e, mais amplamente, com produções diversas, na arte e fora dela.

Com o princípio de que a palavra, o enunciado e a linguagem são sociais e ideológicos, cada produção artística está inserida em determinado espaço-tempo e produz sentidos, a partir de um projeto de dizer. Nesse caso, uma canção muito escutada, cujo autor é largamente reproduzido, demarca uma série de respostas na comunicação social, porque determina quais narrativas, estilos, vozes e construções vendem e se tornam “sucesso”. O canal oficial3 da dupla possui cerca de 4,9 milhões de inscrição, e o vídeo de Recairei (ao vivo), 330 milhões de visualização, um dos mais vistos do canal. São números que, novamente, atestam grande circulação e popularidade, fator que explica a escolha e a relevância da discussão em torno dessa canção, estilo e autores. 

Recairei trata de um sujeito em estado de superação amorosa, tema presente em demais estilos e em momentos históricos variados da canção brasileira. A narrativa aborda uma certeza de superação em contraste com uma condição de volta. Se pensarmos com o Círculo, que compreende o sujeito constituído pelas relações que mantém com os “outros”, via alteridade, portanto, é possível dizer que na canção o “você” constitui o “eu” como ser em processo de superação e vice-versa. 

De início, na canção, há uma demarcação temporal de distância entre o “eu” que supera e o “você” a ser superado. A forma na língua (“estar limpo”) escolhida para tanto expressa um valor: estar próximo e ter contato com “você” significa estar não-limpo/sujo (negativo), caracterizando, assim, esse processo e os sujeitos envolvidos. 

Os versos seguintes da letra mostram práticas superadas, como “olhar histories”, sentir saudades e afins. A distância descrita (uma semana) se concretiza em tais práticas, que implicam determinada memória da relação. Fator relevante é a presença de redes sociais nesse processo de superação, certeza e distanciamento. “Histories” e “curtidas” são recursos oriundos de espaços digitais, que também demarcam e caracterizam como o sofrimento e a superação ocorrem. Da mesma forma, a “mensagem” significa essa presença de tecnologias digitais em relações e processos amorosos. Nesse caso, são formas de contato entre o “eu” que supera e o “você” superado.

O tempo e o modo verbal (superei) expressam algo concluído e feito no passado, reforçado também com o advérbio temporal “já”. Essas construções de língua afirmam uma posição do sujeito de superação completa. Nos versos seguintes, há outro reforço: a repetição e a “certeza”. Porém, essa assertividade é tensionada por uma condição: o envio, outra vez, de mensagem. O “mas” é responsável por fazer essa tensão, pois expressa um sentido adversativo e causa instabilidade na certeza da superação. 

A superação, pois, fica à mercê da condição da “mensagem”. Outra vez e o próprio sentido de recair revelam acontecimentos anteriores. Com isso, é possível pensar em um processo de superação – contato – recaída, tendo em vista o tempo de distância (uma semana) e a possibilidade de outra vez. Assim, na canção, não se trata de um estado estável de superação, mas instável e tenso, marcado por aspectos adversativos e condicionais, no qual há a negação do “outro”.

De acordo com Volóchinov (2017), todo enunciado é orientado, significa e avalia socialmente. Recairei, desse modo, está em interação com outros enunciados e sujeitos, construindo valor e significações sobre o processo de superação, a partir de uma construção específica de língua4 (instrumentos, vocais e procedimentos musicais etc.). A grande circulação dessa canção revela que e como a narrativa de superação vende e é consumida no Brasil, produzindo respostas e sentidos variados na esfera artística, na jornalística, na científica e afins.

[1] Disponível em: ‘Batom de cereja’, de Israel e Rodolffo, é o maior hit do 1º semestre do Brasil em streaming | Música | G1 (globo.com). Acesso em: 25. Jul. 2021.
[2] Disponível em: Os Barões da Pisadinha – Recairei (Ao Vivo) – YouTube. Acesso em: 25. Jul. 2021.
[3] Disponível em: Os Barões da Pisadinha Oficial – YouTube. Acesso em: 25. Jul. 2021.
[4] Como tratei brevemente da letra, mencionei apenas construções de língua. Se se adotado outro corte metodológico, por analisar o gênero canção “completo”, outros pontos e construções desse tipo relativamente estável devem entrar na análise, como mencionado no texto.

OS SIGNOS IDEOLÓGICOS QUE VALORAM UM SUJEITO COMO “BOM” E “RUIM” NA SAGA HARRY POTTER

Giovana Cristina de Moura

O signo ideológico para o Círculo de Bakhtin não é algo pronto. Ele se constitui na relação entre sujeitos de linguagem, no confronto, que se dá na interação. O indivíduo e as vozes sociais que dissemina são constituídos no e pelo social (VOLÓCHINOV, 2017). Os signos adentram na consciência individual dos sujeitos, porém, é na interação que esses signos são criados e ressignificados. Uma vez na consciência eles não permanecem ali, estáticos. São devolvidos ao solo social a cada dia, pois o signo é produto da interação (VOLÓCHINOV, 2019). Nesse sentido, os sujeitos-bruxos considerados como “bons” e “ruins” na saga Harry Potter são constituídos na relação desses com os seus outros. É o governo bruxo – Ministério da Magia –, a partir dos seus representantes, que consolida o “bom” (os bruxos sangue puro) e o “ruim” (mestiços, nascidos-trouxa, criaturas a seres).

A própria configuração da Escola, Hogwarts, corrobora para com a divisão dos bruxos em Casas. Cada Casa constitui-se a partir dos signos atribuídos a elas. A Grifinória e a Sonserina, duas das quatro Casas, rivalizam, a partir dos seus bruxos representantes, ao longo de toda a narrativa. Os signos “coragem” e “ambição” (no sentido negativo) também inserem certos estereótipos aos bruxos representantes. A Casa Sonserina é associada à pureza do sangue, à magia das trevas; a Grifinória, por sua vez, é caracterizada como a Casa na qual habitam os heróis (para um certo grupo de bruxos, aqueles não coniventes com o órgão que regula o mundo bruxo, o Ministério da Magia). Entretanto, para a superestrutura dominante, o Ministério da Magia, o “bom” é o oposto: aqueles que discriminam aqueles que não são “puros o suficiente” são recompensados e ocupam as melhores posições sociais dentro e fora deste governo.

Na interação, os sujeitos refletem e refratam vozes sociais coniventes e resistentes à hegemonia (da pureza do sangue, no caso da obra). Os interesses sociais são orientados de formas distintas na comunicação discursiva. A partir da materialização de tais vozes em um enunciado estético podemos analisar quem é o bom e o ruim para grupos sociais com pontos de vista antagônicos, conflitantes (MEDVIÉDEV, 2012). Para aqueles que se opõem as estratégias de dominação do órgão bruxo, os “bons” são os sujeitos que se posicionam de forma contrária à esta política (higienista e exclusória, pois apenas os bruxos “sangue puro” ascendem socialmente e são beneficiados por este governo); aqueles que resistem na infraestrutura. É na luta entre classes que os signos “bom” e “ruim”, “puro” e “impuro” são constituídos. O principal embate entre essas vozes se dá entre bruxos que representam as duas Casas, Sonserina e Grifinória.

Os bruxos que compõem a alta hierarquia do Ministério da Magia orgulham-se de seu “sangue puro” e utilizam-se deste discurso para perseguir, condenar e punir aqueles que não se encaixam nesta hegemonia, o “ruim”. Os bruxos considerados como “ruins” são, majoritariamente, da Casa Grifinória. A rivalidade entre as duas Casas se dá por conta deste embate. Harry Potter e Voldemort, vilão da saga, é o principal exemplo desta luta entre classes, porém, o confronto se dá entre as duas Casas e, também, entre o Ministério da Magia e aqueles que se opõem a ele (bruxos que não compactuam com suas políticas, que são higienistas, persecutórias e beneficiadora a um grupo específico, à classe dominante, voltada aos sonserinos). No quinto livro da saga, intitulado de “Harry Potter e Ordem da Fênix”, o embate entre as forças centrípetas e centrífugas é ainda mais potencializado.

As forças centrípetas, homogeneizadoras, monopolizadoras, censuram àqueles que se opõem à hegemonia; as centrífugas, por sua vez, na infraestrutura, reagem a esta monopolização da palavra, lutam para que as suas demandas sejam atendidas na infraestrutura (BAKHTIN, 2014). O movimento centrípeto é mobilizado pela representante do Ministério da Magia, Dolores Umbridge. Em nome desse Estado, suprime direitos daqueles considerados como “ruins” e “inimigos do Estado” (aqueles que se posicionam, de forma mais direta ou velada, quanto à intervenção do governo na Escola, Hogwarts). O movimento centrífugo é semiotizado pelos bruxos que, na infraestrutura, dentro e fora da Escola, articulam-se de forma contrária àquela esperada pela superestrutura dominante. Buscam mobilizar os outros bruxos acerca dos perigos de um governo que beneficia apenas os considerados como “dignos” de proteção.

Qualquer produto ideológico não é apenas uma parte integrante da realidade natural e social. Não é apenas um reflexo, um corpo físico, um instrumento de produção ou produto de consumo (VOLÓCHINOV, 2017). É, também, refração. O enunciado estético reflete e refrata uma realidade que encontra-se fora dos seus limites. Embora Harry Potter seja uma obra literária relacionada ao contexto inglês, britânico, as estratégias discursivas colocadas em prática pelo Ministério da Magia são, com uma outra configuração, próximas àquelas empregadas pelo Brasil governado por Jair Bolsonaro: os “bons” são aqueles considerados como “puros”. Os “ruins” são aqueles que lutam para que as suas demandas sejam atendidas, para que a sua integridade, enquanto seres humanos, seja respeitada. Esses sujeitos são agredidos por uma política que os cala, que os trata como inimigos, porém, como o signo é reflexo e refração, não deixam de resistir à uma política que os coloca à margem da sociedade.

REFERÊNCIAS

BAKHTIN, M. M. Questões de literatura e de estética: a teoria do romance. Tradução de Aurora Fornoni Bernardini et al. 7ª. ed. São Paulo: Hucitec, 2014.

MEDVIÉDEV, P. N. O método formal nos estudos literários: introdução crítica a uma poética sociológica. São Paulo: Contexto, 2012.

PAULA, L. DE; SIANI, A. C. Uma análise bakhtiniana da necropolítica brasileira em tempos de pandemia. Revista da ABRALIN, v. 19, n. 3, p. 475-503, 17 dez. 2020.

VOLÓCHINOV, V. A palavra na vida e a palavra na poesia. Trad. Sheila Grillo e Ekaterina Vólkova Américo. São Paulo: Editora 34, 2019.

VOLÓCHINOV, V. Marxismo e Filosofia da Linguagem. Trad. Sheila Grillo e Ekaterina Vólkova Américo. São Paulo: Editora 34, 2017.

Corpos em constante negação: o alvo tem cor e classe

Kamilat Ariele Souza Akinlotan

O mundo atravessa quase dois anos de pandemia, ao lado de perdas incessantemente dolorosas, parentes, amigos e companheiros que restaram somente em memórias. Um momento de desajustes, desarmonias e desgoverno que propõe práticas eugenistas, autoritárias e discriminatórias como a política atual brasileira (PAULA; LOPES, 2020).

    A vivência e a (sobre)vivência é histórica, reflete e refrata a situação de desordem e regresso em que o país está condicionado. E não obstante, a resistência que há na população brasileira reverbera, àqueles que anseiam por um futuro em que a educação e a ciência sejam valorizadas, e que lutam em combate a desigualdade social e racial.  Este texto propõe uma discussão a respeito de acontecimentos históricos atuais e marcados por violência pautados no racismo. De acordo com Bakhtin em Estética da Criação Verbal, “os enunciados e seus tipos, isto é, os gêneros discursivos, são correias de transmissão entre a história da sociedade e a história da linguagem” (p. 268). Portanto, os valores sócio-históricos estão fundamentalmente constituídos nos enunciados, no qual se investiga e analisa o contexto. Em 2020, por meio de hashtags nas mídias sociais, houveram ondas de protesto em prol ao combate à violência policial e ao racismo, que eclodiu nos EUA, o movimento antirracista Black Lives Matter (Vidas Negras Importam).

      O assassinato de George Floyd designou no estopim do protesto nos EUA. Jovem, homem negro, que levou a ser asfixiado por um policial branco que ajoelhou em seu pescoço por supostamente ter uma nota “falsa” em um estabelecimento em Minneapolis no estado de Minnesota. O falecimento de Floyd mobilizou o mundo, na internet, famosos e empresas multinacionais utilizaram hashtags, feed com imagens de fundo preto que semiotizam o luto e o combate aos grupos supremacistas brancos e a brutalidade policial oriundo do racismo estrutural do país.

O primeiro não foi Floyd, e infelizmente não será e não foi o último. Para a população negra a qualquer momento pode determinar a assinatura da carta da sua sentença, uma vez que o mundo é colonizado e o corpo negro por sua vez é negado. (FANON, 2020).

     No Brasil, de acordo com cantor e compositor Criolo em sua canção Boca de Lobo, “Um litro de Pinho Sol pra um preto rodar” fazendo referência ao jovem negro Rafael Braga, que foi condenado por 11 anos por roubar um produto de limpeza, enquanto o atual presidente recusou ofertas da vacina que culminou em mais brasileiros mortos pelo vírus, no qual resultaram em mais de 500 mil mortos. Entretanto, os olhos insistem em condenar outros corpos. O presidente Jair Bolsonaro está envolvido em escândalo de corrupção da vacina Covaxin, mas nestes casos as investigações andam em passos vagarosos. O alvo tem classe e cor e o detentor da arma é a branquitude.

   O Fruto do racismo estrutural é o estado determina quem morre e quem vive para a manutenção da necropolítica (MBEMBE, 2018). Conforme Sílvio Almeida (2021), “O racismo, mais uma vez, permite a conformação das almas (…)”, ou seja, se naturaliza morte de pessoas racializados por “balas perdidas” como o caso da jovem Kethlen Romeu, mulher, gestante, negra, jovem e designer de interiores e vítima de violência policial no ano de 2021 no Rio de Janeiro em uma visita a sua avó materna na comunidade local, entretanto foi atingida por uma “bala de fuzil perdida”. Sonhos, desejos, construções e famílias que foram negados. Não foi somente a Kathlen, antes foi João Alberto em um supermercado brutalmente agredido por seguranças e entre outros e infelizmente não serão os últimos.

      Vidas negras importam. Não somente importam nos feeds do instagram, nas publicações e publicidades que promovem “consciência racial” uma vez por ano ou somente no dia 20 de novembro. A ação da luta antirracista deve ocorrer diariamente em todos os locais, é a inserção, integração, ato de alteridade, é a visibilidade de corpos que são constantemente negados em uma sociedade branca, heteronormativa e patriarcal. A luta e resistência é feita incessantemente, inclusive neste texto dispondo a escrita como ato de protesto, político, crítico e reflexivo.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALMEIDA, S. Racismo estrutural. São Paulo: Editora Jandira, 2021

BAKHTIN, M. Estética da criação verbal. 6ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2011.

BERMÚDEZ, A.Morte de George Floyd: 4 fatores que explicam por que caso gerou onda tão grande de protestos nos EUA. BBC News Brasil. Publicado em: 2 de junho de 2020. Disponível em: < https://www.bbc.com/portuguese/internacional-52893434>

FANON, F. Pele negra, máscaras brancas. São Paulo: Ubu editora, 2020.

GALVANI. G.Percepção de não-combate à corrupção por Bolsonaro chega a 45%. Carta Capital. Publicado em 02/07/2021. Disponível em: < https://www.cartacapital.com.br/politica/percepcao-de-nao-combate-a-corrupcao-por-bolsonaro-chega-a-45/>

G1 Rio.O que se sabe sobre a morte da jovem Kathlen Romeu, no Rio. G1 Notícias. Publicado em 10/06/2020. Disponível em:  < https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2021/06/10/o-que-se-sabe-sobre-a-morte-da-jovem-kathlen-romeu-no-rio.ghtml >

MBEMBE. A. Necropolítica. São Paulo: N-1, 2018

PAULA, L.; LOPES, A. S. A eugenia de Bolsonaro: leitura bakhtiniana de um projeto de holocausto à brasileira. Revista Linguagem, São Carlos, v.35, Dossiê Discurso em tempos de pandemia. setembro/2020, p. 35-76.

RIBEIRO. D. Pequeno Manual Antirracista. 1. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

VASCONCELLOS, H. Apaixonado por futebol, brincalhão e família: quem era João Freitas. Uol Notícias. Publicado em: 20/11/2020. Disponível em: < https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2020/11/20/quem-era-joao-freitas-morto-no-carrefour.htm>

VERBIVOCOVISUALIDADE: UMA CONCEPÇÃO DE LINGUAGEM

Leonardo de Oliveira

Doutorando em Linguística e Língua Portuguesa – UNESP

Considerações iniciais

Há alguns anos, quando ainda estava na graduação em Letras, cursei uma disciplina denominada Literatura e outras linguagens, cuja proposta era, em resumo, a de analisar inter-relações da literatura com a pintura, com o cinema, com as mídias de massa, com a fotografia e com a música. Objetivando contemplar tanto a influência dessas produções na literatura quanto as contribuições da literatura para com esses campos da expressão artística, a disciplina se deu pelo estabelecimento de diálogos intersemióticos cuja análise me despertou um interesse crescente em investigar essa riqueza e multiplicidade sígnicas a partir de uma perspectiva enunciativa, interesse que reavivo agora nessa oportunidade de tecer considerações acerca da verbivocovisualidade da linguagem (Paula e Serni, 2017) com base em uma das atividades realizadas nessa disciplina, em específico.

A atividade em questão foi um exercício em que deveríamos discorrer sobre a natureza da relação entre o quadro O grito (1983), de Edvard Munch (1863-1944), e o poema O grito (Munch) (1996), de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), expressões artísticas cujo diálogo se dá segundo uma espécie de equivalência intersemiótica entre a imagem e o poema, de um modo tal que o último, de um certa forma, traduz em palavras a expressividade do primeiro. Nesse diálogo, o eu-poético do dístico de Drummond parece exprimir pelo verbal o ideal estético expressionista, interessado na manifestação de leituras subjetivas da realidade, com a mesma intensidade e agudeza da pintura de Munch. É justamente a partir dessas correspondências inter e multissígnicas subjetivas que procurarei explorar o conceito de verbivocovisualidade, buscando mostrar em um e outro enunciado remissões a que as semioses neles ostensivas nos levam a fazer a aspectos que extrapolam ao que nossos sentidos podem apreender de imediato.

A verbivocovisualidade da linguagem

O conceito de verbivocovisualidade foi cunhado por James Joyce no contexto das vanguardas modernistas européias e se refere à inter-relação do verbal com as imagens, sentimentos e sensações que um poema é capaz de provocar. O conceito foi retomado no século XX pelos artistas envolvidos com o movimento concretista, quadro no qual ele é empregado em alusão à busca de uma integração total entre a forma e o conteúdo de poemas-objetos resultantes da união inquebrantável entre semioses diversas. Posteriormente, o campo bakhtiniano se apropria do conceito a partir de diferentes enfoques e terminologias, dentre os quais nos interessa aqui o de Paula e Serni (2017), segundo o qual a verbivocovisualidade é vista como um aspecto inerente à linguagem e que, em decorrência disso, implica numa relação mútua e indissolúvel entre as dimensões sonora, visual e verbal verificáveis em todo e qualquer enunciado, independentemente das materialidades que toma como base para a sua corporificação. De acordo com as autoras, “a verbivocovisualidade diz respeito ao trabalho, de forma integrada, das dimensões sonora, visual e o(s) sentido(s) das palavras. O enunciado verbivocovisual é considerado, em sua potencialidade valorativa.” (2017, p. 179-180). Diante dessas considerações, tomo o conceito embasado nessa última visão explicitada para fazer a análise dos enunciados elencados, concepção que pressupõe a verbivocovisualidade tanto enquanto concepção de linguagem quanto como coconstituição materialidades sígnicas distintas, expressas ou implícitas.

Tendo uma vez assumido essa compreensão verbivocovisual das expressões humanas, busco nesse breve trabalho sustentá-la por meio da análise dos dois enunciados estéticos acima mencionados, com os quais pretendo demonstrar, por vias inversas (visto que, no primeiro, partirei do imagético para as demais semioses e, no segundo, do verbal para as outras materialidades a ele imbricadas), tal arranjo intersemiótico concernente à linguagem. Tratarei primeiramente do quadro O grito (1893), de pintor norueguês Edvard Munch (1863-1944), tela considerada a precursora do movimento expressionista. Observe-o a seguir:

Figura 1: quadro O grito, de Edvard Munch.

Como se pode observar na figura 1, a tela nos apresenta uma figura humana aterrorizada sobre uma ponte onde as silhuetas de outras duas pessoas aparecem mais atrás e sobre um fundo onde estão estampados um lago e um céu alaranjado de entardecer. Os traços grossos, extensos e rudimentares das pinceladas, aliados às cores vibrantes empregadas, à força expressiva das linhas curvas e à expressão de horror que a figura em primeiro plano ostenta, criam uma atmosfera de angústia que, ancorada na estética expressionista, externaliza não somente as impressões singulares e desesperadas do autor-criador acerca do mundo a sua volta como ainda nos impacta quando da sua recepção, evocando-nos sentimentos fortes e que gravitam em torno dessa aura tensa e agônica que a obra inspira. Essas evocações, na qualidade de impressões provocadas pela apreciação da obra, consistem em vivências compreensivas e interpretativas que, de acordo com Volochinov, ao tocarem a interioridade dos sujeitos convertem-se em signos, já que, segundo essa perspectiva, o psiquismo interior é essencialmente sígnico (2018, p. 116). Assim, estamos diante de uma manifestação ideológica em cuja compreensão/interpretação recorremos ao discurso interior, ou seja, ao material sígnico básico com o qual se cria qualquer signo cultural, ou seja, a palavra, e, nesse sentido, o filósofo assevera que “toda manifestação ideológica, isto é, todos os outros signos não verbais são envolvidos pelo universo verbal, emergem nele e não podem ser nem isolados, nem completamente separados dele” (2018, p. 100-1).  Portanto, temos um enunciado que num primeiro momento, parece-nos exclusivamente imagético, mas em cuja compreensão “a consciência sempre saberá encontrar alguma aproximação verbal como o signo cultural” (2018, p. 101), seja este último de que natureza for. Dessa forma, não podemos ignorar o fato de que, na apreensão do quadro de Munch, assim como na apreensão de qualquer outra coisa de que nos apercebamos, articulamos o não verbal, expresso na tela, ao verbal, subjacente a qualquer processo psíquico levado a cabo pela consciência. Esse é um dos postulados do Círculo no qual me ancoro aqui para corroborar, ainda que de forma bastante modesta, as formulações de Paula e Serni (2017) acerca da verbivocovisualidade dos processos enunciativos. Segundo essa perspectiva, tudo o que a contemplação do quadro suscita, independentemente da natureza do que ele evoca, adquire alma sígnica sob alguma forma material, razão pela qual vivências pessoais, memórias, movimentos, gestos, sentimentos, sensações, dizeres, imagens, sons etc. tornam-se passíveis de integrar qualquer processo enunciativo.

Esse movimento semântico em constante renovação resultante da união entre semioses se dá da mesma forma com enunciados explicitamente ancorados no verbal e, para verificarmos isso, passemos agora à observação do poema do poema O grito (Munch) (1996), de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987):

O grito (Munch)

A natureza grita, apavorante.

Doem os ouvidos, dói o quadro. (ANDRADE, 1996, p. 30)

Posterior ao quadro de Munch em mais de um século, o dístico acima apresentado ilustra bem o pensamento bakhtiniano ao nos descortinar em ato o movimento de reflexo e refração do projeto de sentido do primeiro. Diferentemente de um enunciado que poderia narrar, comentar ou descrever o quadro, o pequeno poema simplesmente traduz em palavras o que o quadro exprime, a princípio, em cores e formas. Além disso, já encontramos desde a leitura do título do poema alusões claras a uma expressão artística de natureza plástica amplamente conhecida, o que nos leva a mobilizarmos o que conhecemos a respeito da tela expressionista quando fruímos os versos de Drummond. Nesse sentido, o ato da leitura do poema acaba por incorporar uma dimensão visual ao apontar para a obra de Munch, articulação a qual se somam os aspectos sonoros característicos da poética e os recursos expressivos inerentes à forma e ao conteúdo dessas produções literárias. Tal integração semiótica faz da apreciação do dístico uma experiência sinestésica na qual a dimensão gráfica e a conformação sintático-vocabular nos remetem à musicalidade, as imagens se insinuam pelo próprio conteúdo e o apelo à nossa sensibilidade se dá pelas emoções e sensações que esse todo multissemiótico coeso, breve e agudo desencadeia. Recorrendo novamente à Volochinov, encontramos a afirmação de que

“ainda que a enunciação esteja privada de palavras, bastará o som da voz – a entonação – ou somente um gesto. Fora de uma expressão material, não existe enunciação, assim como também não existe a sensação.” (VOLOCHINOV, 2013, p. 173 – 174 – itálicos originais).

Com base nessa asserção, entendo que reações físicas, sentimentos e emoções também consistem, assim como as formas lógicas de compreensão, em meios igualmente factíveis de se apreender o mundo. Portanto, ao se tornarem cognoscíveis, todas essas vias perceptivas, sejam elas racionais, emocionais ou sensoriais, fazem das dinâmicas enunciativas, sobretudo aquelas de caráter estético, experiências semioticamente ricas. É por isso que a observação do quadro ou a leitura do poema tornam-nos expressões verbivocovisuais, pois a comunhão de todos esses aspectos passa pela semiotização deles ao chegarem a nossa consciência, convertendo-os em signos assim sujeitos à atribuição de sentidos tão diversos quantos os lugares ocupados pelos sujeitos que interagem com esses enunciados.

Considerações finais

Ao contemplarmos o quadro apresentado (figura 1) ou ao lermos o poema citado, fazemos associações entre os múltiplos aspectos constitutivos de cada um tanto entre si quanto com tudo o que podem incutir conforme a singularidade dos lugares de compreensão de cada sujeito que a eles apreciam. Se na contemplação de cada um desses enunciados já agregamos um sem-fim componentes que transcendem ao próprio material semiótico que os constitui, no diálogo entre eles promovemos encontros intersígnicos que potencializam tais possibilidades de associação semântica e conferem a eles riqueza semiótica ainda maior. Assim, se à simples contemplação da tela de Munch ou do poema de Drummond, isoladamente, já se incorporam vivências sensório-emotivas e saberes diversos, no encontro entre eles cada um se renova enunciativamente ao ser retomado pelo outro de um modo tal que formam correntes enunciativas em cujo movimento dialético acumulam e articulam essas vivências e saberes. Com isto, todas essas experiências conscientes reunidas, sendo de naturezas sígnicas distintas entre si e inevitavelmente incorporadas aos processos enunciativos, fazem com que os diferentes materiais semióticos constitutivos desses enunciados se somem, se permeiem e se alarguem, fazendo da comunicação discursiva um acontecimento fundamentalmente verbivocovisual.

Como busquei demonstrar, apesar de a pintura e o poema serem baseados em materialidades sígnicas distintas, um e outro são igualmente permeados por experiências socioenunciativas e por subjetividades diversas que conferem à produção, circulação e recepção de ambos insinuações a variadas formas materiais com as quais se pode assimilar o mundo.

Referências

ANDRADE, Carlos Drummond. Arte em Exposição. Rio de Janeiro: Editora Record, 1996.

BRASIL. Ementa e conteúdo programático. Emitida em 15 de julho de 2013. Disponível em:<https://sig.ufla.br/modulos/publico/matrizes_curriculares/index.php>. Acesso em: 10 jun. 2021.

PAULA, L.; SERNI, N. M. A vida na arte: a verbivocovisualidade do gênero filme musical. Raído, Dourados, v. 11, n. 25, p. 179-180, jan./jun. 2017.

QUADRO O Grito, de Edvard Munch. Cultura genial, [s.d.]. Disponível em: https://www.culturagenial.com/quadro-o-grito-de-edvard-munch/. Acesso em: 10 jun. 2021.

VOLOCHINOV, V. N. Marxismo e Filosofia da Linguagemproblemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem. Tradução, notas e glossário de Sheila Grillo e Ekaterina Vólkova Américo. 2. ed. São Paulo: Editora 34, 2018.

Liliths e Evas: breve olhar bakhtiniano 

Rafaela dos Santos Batista 

Desde os primórdios, homens e mulheres não ocupam o mesmo lugar social. As relações humanas são hierárquicas e fundamentadas em valores de interseccionalidade entre gênero, raça e classe (DAVIS, 2016), por isso, o funcionamento das esferas da vida exaltam o sexo masculino, pois o homem (principalmente o branco e economicamente privilegiado) é o superior que necessita do processo correlato da mulher inferior (SAFFIOTI, 1984, p. 29).  

Ainda hoje, mulheres são subjugadas como auxiliares de homens, os papéis impostos devido seu corpo biologicamente capaz de reproduzir à luz de uma naturalização resulta em funções sociais que toda mulher deve seguir se quiser ser adorada: primeiro deve ser boa filha e irmã, depois uma esposa maravilhosa e uma mãe exemplar, tudo isso adornada de características como a bondade, fidelidade, doçura e delicadeza.  

Mulheres contemporâneas são tratadas com valores de séculos atrás. Um grande exemplo está no atual governo nas mãos de Bolsonaro, famoso pelas suas considerações misóginas, homofóbicas e racistas, como no caso que ofende a deputada Maria do Rosário ao dizer que “Ela é muito feia. Eu não sou estuprador, mas, se fosse, não iria estuprar porque ela não merece”1

Dizer que desde sempre acontece essa inferiorização não é exagero, uma das grandes responsáveis pelo sexo feminino ser colocado como secundário na existência social é os dogmas que a igreja impõe ao cristalizar a naturalização da mulher reprodutora que deve ser mãe, e por consequência, destinada ao privado. Vale lembrar que a incumbência materna da mulher advém de uma cópula de estrita reprodução, o sexo nunca deve ser prazer, essencialmente à mulher.  

A função de submissão e vassalagem ao homem foi construída pelo discurso religioso baseado no livro do Gênese, no Antigo Testamento, que, na versão judaico-cristã, omite a criação de Lilith e a substitui por Eva.  

O demônio noturno, assassina de recém-nascidos, sedutora e prostituta Lilith foi criada como a primeira mulher de Adão, nascida do pó e insuflada pelo sopro divino com a missão de fundar a espécie humana. No entanto, foi expulsa do paraíso ao se opor a permanecer por baixo do homem no ato sexual. Pela luta de igualdade entre Adão e ela, Lilith dialoga com todas as mulheres que reconhecem sua sexualidade e autoridade feminina. No patriarcado toda mulher se torna demônio se for contra os ideais ideológicos, tal qual Lilith fora pintada e até apagada da história bíblica.  

O lugar de Lilith fora dado a Eva, mulher feita da costela de Adão (e não mais do mesmo pó, assim, não mais igual), para responder ao papel submisso e dócil do feminino. Mesmo sendo criada para o posto de auxiliar, Eva foi vista com espírito transgressor onde tudo o que é ruim no mundo, só existe por sua culpa.  

O fato de toda mulher ser relacionada ao mal e ao diabo tem ligação com Eva, seduzida e levada pela serpente maligna a pecar. Relacionada a vergonha e a culpa de afastar o homem ingênuo e excelente de Deus, foi entendida como regida pela sexualidade, cobiça e pelo mal. Eva está em toda mulher pensante.  

Designadas sempre ao papel submisso, basta uma discordância ao que diz o homem que a mulher será julgada. Na bíblia ainda se tem a perfeita Maria, mãe virgem que concebe Jesus Cristo. Lilith foi subjugada por querer seu lugar de direito, Eva foi malvista por cair “em tentação”, e ainda recebe o  título de: 

[…] a portadora do signo perverso da palavra, já que tudo indica que a serpente falava e que a linguagem resultou de uma conspiração entre o réptil com cabeça e língua masculinas e a sedutora criada para ser ajudante e serva dos desígnios de Deus por meio do homem (ROBLES, 2019, p. 41). 

A palavra, semente ideológica usada para domínio hegemônico também foi criada por Eva, mesmo que seu uso superestrutural seja feito pelos homens poderosos. O Círculo de Bakhtin, ao estudar e entender a linguagem como meio de mudanças sociais (VOLÓCHINOV, 2017), compreende a palavra como ideológica por ser composta de signos ideológicos que advém da interação social entre sujeitos.  

A ideologia penetra nas esferas onde há meios de comunicação, sendo arena para embate de propensões sociais, dessa forma, a comunicação dialógica é composta por forças contrárias entre discursos e sujeitos (enunciativos, que para a teoria bakhtiniana é no mínimo dois: eu e outro).  

Toda esfera é composta de vozes sociais alteritárias que semiotizam ideologias dominantes e também as tidas como inferiores. Numa sociedade patriarcal, a linguagem é o meio para a ideologia em voga propagar-se e permanecer em força centrípeta.  

Ao saber que a igreja impõe valores até hoje seguidos, é claro que faz parte do jogo ideológico onde superestruturalmente impute suas axiologias na infraestrutura, tudo isso por meio da palavra (que julga ser criada por Eva, sendo então, ruim). 

As forças contrárias e contraditórias do discurso preveem uma ideologia em primazia, a igreja transforma e quer suas premissas como verdades incontestáveis, com isso, articula as histórias bíblicas para que a mulher seja sempre perversa e má.  

O temor a Deus é colocado às mulheres fiéis ao mostrar que Eva pecou e foi expulsa, mas também que Lilith abusou dos seus privilégios e foi castigada. A história omitida da bíblia tem peso, porque escondem a mulher desafiadora ao tentarem fazer que nenhuma serva da igreja seja como Lilith. Ao colocar que o sexo feminino é culpado pelas coisas ruins do mundo, as fiéis são obrigadas a seguir o ideal de Maria, ser mãe (virgem, não ter prazer no ato sexual) e uma boa esposa.  

A palavra que é ideológica por excelência (VOLÓCHINOV, 2017), é o meio de propagação do discurso religioso que reifica a mulher, mas, a ideologia não nasce no sujeito e sim no social (MEDVIEDÉV, 2012). Valores vêm das esferas e são postos no sujeito que entre interações recebem vozes sociais diversas que o formam enquanto ser evento único (BAKHTIN, 2010).  

Das vozes sociais fundantes do sujeito, a singularidade surge e este é compelido a se posicionar no mundo, inclinando-se a um valor social. Há mulheres que recebem a ideologia patriarcal-religiosa sem se opor, são seguidoras fiéis de uma axiologia que as trata como um corpo reprodutor e sem importância.  

A sociedade contemporânea condena Liliths e Evas, mas ama Marias e as colocam como ideal: a mulher que não é divina acaba por ser rechaçada. A relevância de se pensar o corpo da mulher em sociedade ainda não é uma ideia retrógada, pois há homens (e mulheres) que querem o feminino como segundo sexo (BEAUVOIR, 2009).  

A liberdade feminina é uma busca, mulheres devem ser livres de rótulos e devem poder alcançar qualquer espaço, não basta parar ao conseguir alguns direitos sociais, deve-se ansiar a queda do que nos derruba: o eco patriarcal.  

Referências 

BAKHTIN. M. Para uma filosofia do ato responsável. São Carlos: Pedro e João, 2010. 

BEAUVOIR, S. 1908-1986. O Segundo Sexo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009. 2v. 

DAVIS, A. Mulheres, raça e classe. São Paulo: Boitempo, 2016. 

MEDVIÉDEV, P. N. O método formal nos estudos literários: introdução crítica a uma poética sociológica. São Paulo: Contexto, 2012. 

ROBLES, Martha. Mulheres, mitos e deusas: o feminino através dos tempos. São Paulo: Editora Aleph, 2019. 

SAFFIOTI, H. O poder do macho. São Paulo: Editora Moderna, 1987. 

VOLOCHÍNOV, V. Marxismo e filosofia da linguagem. Problemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem. Rio de Janeiro: 34, 2017.