Só acho!

Rosineide de Melo

 Permito-me pela primeira vez divagar acerca das concepções de Bakhtin. Divagar, porque a intenção aqui não é apresentar nenhum estudo científico (embora o GED seja um grupo sério e cujos estudos são rigorosos). Então, só “achismos” a partir de agora!

Em passado recentíssimo, assistimos à diversidade de discursos circulantes nas redes sociais por ocasião das eleições – só para falar dos discursos dos eleitores e não dos candidatos! Dos mais lúcidos aos mais insanos; dos mais coerentes aos sem quaisquer coerências; dos embasados aos levianos; dos que suscitavam reflexão aos que intencionavam a manipulação; dos fatos, às evidências e às invenções.

Independentemente dos candidatos/partidos em disputa, o que assistimos e participamos foi a um efetivo reflexo e refração das polarizações maniqueístas tão presentes em nossa sociedade contemporânea:  bem x mal; céu x inferno; certo x errado; comunismo x capitalismo… quando entendo que deveríamos dar lugar ao “bem E mal”!

Fiquei imaginando o que Bakhtin (sujeito social e não o empírico) diria disso tudo: das indiretas, dos discursos enviesados e tendenciosos; dos discursos, por vezes, discriminatórios e preconceituosos; dos discursos tidos como de ódio (daria até para acionar a Análise do Discurso Francesa e estudar as formações discursivas, estabelecendo um rico diálogo metodológico com a Análise Dialógica do Discurso!)

Sabemos da inexistência da neutralidade do signo, que traz em si todas as apreciações axiológicas (estéticas e éticas) e ideológicas (históricas, políticas, culturais), em busca da construção do sentido: apesar de sabermos que não mudaríamos a opinião do outro (do errado?!), os embates foram travados nas redes sociais: explicitação da arena! Assim, o tom valorativo a favor de um candidato só trazia aspectos positivos (ou pseudos) sobre ele e negativos (ou pseudos) sobre o outro e vice-versa. O argumento virava contra-argumento à luz das entoações valorativas, a partir dos horizontes apreciativos. Os signos com mesmos significados construíram sentidos diferentes de acordo com o que se queria mostrar.

Fiquei pensando então acerca das concepções de alteridade, exotopia e de que “O signo se torna arena onde se desenvolve a luta de classes” (Volochinov/Bakhtin, 1995 [1929], p. 46).

Acho que Bakhtin não se espantaria, pois já havia anunciado, lá em Marxismo e Filosofia da Linguagem, que:

 Na realidade, todo signo ideológico vivo, tem (…) duas faces. Toda crítica viva pode tornar-se elogio, toda verdade viva não pode deixar de parecer para alguns a maior das mentiras. Esta dialética interna do signo não se revela inteiramente a não ser nas épocas de crise social e de comoção revolucionária (p.47).

 Sinto que Bakhtin notaria que faltou aos eleitores em debate exercer a exotopia, vivenciar a noção de excedente de visão e, conforme bem escreve Freitas (2013):

Essa noção de excedente abre espaço para outros conceitos como os de empatia e de exotopia (…). A exotopia mostra significativamente como o outro, que está fora de mim é quem tem condições de me completar, porque vê o que não tenho possibilidade de ver em mim, tanto em meu aspecto corporal e espacial como nos meus atos que expressam meu modo de ser.

Nesse processo de completar o outro a partir de meu excedente de visão, Bakhtin (2003) situa a empatia como um primeiro passo, no qual eu me coloco no lugar do outro procurando ver axiologicamente o mundo de dentro dele tal qual ele o vê. Esse é um movimento de fusão, identificação com o outro que deve ser completado pelo movimento de retorno ao meu lugar. De volta ao meu lugar, é que tenho condições de contemplar o horizonte do outro, com tudo que descobri do lugar que ocupo fora dele e dar forma e acabamento o que contemplei nele e completá-lo com o que é transcendente à sua consciência (FREITAS, 2013, 192).

Só acho que faltou – nos faltou – colocar-se no lugar do outro, buscar compreender o ponto de vista desse outro, exercitar a empatia.

Sempre que lia na rede social um “absurdo” – da minha apreciação valorativa – procurava entender o que havia levado uma pessoa (tão amiga, tão identificada com meus princípios?!) politicamente analisar as informações de forma tão diferente da minha… nem melhor nem pior, diferente… ler e interpretar  indicadores sociais ou econômicos – tão exatos -, por exemplo, de forma bem diferente… o exato cedendo lugar ao subjetivo (também tenho lá meus pensamentos maniqueístas!) armadilhas da linguagem…ou efetivamente a construção/apreensão de sentidos.

Sabemos que sentido constrói-se no/do contexto, no/do momento histórico, cultural, ideológico; nas/das condições de produção, circulação e recepção; nos/dos sujeitos sociais em interação e com tudo que os constitui. Sentido “da faculdade de julgar” (Houaiss;Villar,  2009, p.682), do sentir, e aí o eu sente diferente do outro! E só o processo exotópico permite-nos exercitar o outro em mim e o eu no outro.

Confesso que repensei meus conceitos… sempre defendi que o Brasil estava acima de alguns comportamentos medievais, que havíamos superado um pouco o machismo; que estávamos convivendo melhor com as diferenças religiosas e de gêneros; que vivenciávamos um certo nacionalismo, valorizando os regionalismos na contemporaneidade cada vez mais  multicultural…. sim e não!

Essas eleições foram históricas não somente pelo fato de ser um acontecimento histórico em si, mas pelo que provocou em termos de discussões nas redes sociais. Acho que se por um lado perdemos a oportunidade de realizar um debate político mais maduro, por outro, ratificamos o quão é importante poder falar, lembrando que o conflito é inerente à arena discursiva.

As redes sociais fazem valer, de uma forma implacável, o caráter irrepetível e único dos textos/enunciados! Certamente Bakhtin ficaria fascinado com elas, com esse espaço discursivo privilegiado e formaria um corpus inesgotável de textos/enunciados circulantes no período eleitoral! E porque continuaria à frente do seu (do nosso) tempo, constataria que suas teorias estariam cada vez mais pertinentes e vanguardistas…

Quanto à ausência de uma postura exotópica, que nos proporcionaria uma certa tolerância com o outro, acho que ele, dialogicamente invocando nosso querido Lupicínio, diria “esses moços, pobre moços… ah se soubessem o que sei…”.

#Só acho

Referências

FREITAS, M.T.A. Identidade e alteridade em Bakhtin. In: PAULA, L. STAFUZZA, G. Círculo de Bakhtin: pensamento interacional. Campinas,SP: Mercado de Letras, 2013. (Série: Bakhtin: Inclassificável, v.3). p. 183-200.

HOUAISS, A. VILLAR, M.S. Minidicionário Houaiss da língua portuguesa. 3ed. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009.

VOLOCHINOV, V. N./BAKHTIN, M. M. Marxismo e Filosofia da Linguagem.  ed. São Paulo: Hucitec, 1995[1929]. Trad. Michel Lahud. Yara Frateschi Vieira.

Do lugar e relevância do escrever e publicar na formação do sujeito-pesquisador

José Cezinaldo Rocha Bessa (UNESP/UERN) [1]

“Olha, eu trabalhava e tive que descobrir meu método sozinha. Não tinha conhecido ninguém ainda. Me ocorriam idéias e eu sempre me dizia: “Tá bem. Amanhã de manhã eu escrevo”. Sem perceber que, em mim, fundo e forma é uma coisa só. Já vem a frase feita. Enquanto eu deixava “para amanhã”, continuava o desespero toda manhã diante do papel branco. E a idéia? Não tinha mais. Então eu resolvi tomar nota de tudo que me ocorria.”
(Clarice Lispector, grifos meus)

Das diversas práticas que me movem no universo da academia, seja como pesquisador, seja como professor, seja como aluno, a produção escrita é, decididamente, aquela com a qual eu tenho estabelecido uma relação mais amorosa. Não porque sempre fui um sujeito dado a escrever ou porque tenha aprendido a escrever com alguma “maestria”. Pelo contrário, foi justamente num contexto de tomada de consciência de minha dificuldade de escrever (atestada por ocasião da produção da temida “redação de vestibular”), que eu passaria a olhar para a escrita com mais entusiasmo, se assim posso dizer.

Já durante a minha formação no curso de Licenciatura em Letras, eu viria a me interrogar sobre como um sujeito como eu, que apresentando tanta dificuldade de escrita, poderia estar justamente ali, num curso de Letras (onde já se imagina alguém que sabe “ler e escrever bem”, que escreve com clareza, com objetividade, sem “erros” de regência ou concordância… alguém que escreve com “perfeição”). Mais, como a partir de minha experiência e de minha formação poderia colaborar com essa tarefa árdua (inclusive de formação) de tantos outros sujeitos em condições parecidas com aquela em que eu me encontrava quando comecei meu curso.

Uma coisa estava clara, para mim, naquele momento: eu não sabia escrever. E mais, eu sempre fazia questão de dizer: escrever é um grande “martírio”. O meu encontro com a escrita, com aquele papel em branco, era também, ressignificando e/ou reacentuando aqui as palavras de Clarice Lispector, um momento de desespero, de angústia.

Gosto de ser honesto comigo mesmo. De pensar que escrever não é uma dessas atividades que mais me desperta prazer, ainda que eu a pratique diariamente, de pensar também que é uma atividade que eu gostaria de adiar, talvez, para um amanhã, um depois de amanhã… ou, quem sabe, indefinidamente. Mas sou chamado à realidade e a reconhecer o lugar essencial e decisivo que a escrita de textos desempenha na minha formação e, certamente, na vida de cada um que me ler. Entendi que escrever é preciso e é exercício essencial na busca incessante por respostas às questões que me cercam e me constituem como pesquisador, como professor, como aluno, como filho, como irmão, como amigo… como sujeito, como ser de linguagem.

Não por acaso, até hoje me interesso por pesquisar a produção escrita. Não por acaso, até hoje me coloco na escuta dos discursos que emanam da escrita produzida no espaço de sala de aula. Quero pensar que os escutar não é tão somente uma atividade de pesquisador, mas que os escutar é também uma forma prazerosa de compreender como me constituo como produtor de textos e como posso contribuir com a escrita do outro, desse outro que me constitui, também, em sua escrita (ainda que não apenas por meio dela).

No meu percurso de encontro com essa temática e com leituras sobre ela até o momento, aprendi também que, se para alguns, escrever é um exercício fácil e prazeroso, para outros não passa de uma atividade torturante, algo que se poderia adiar, como desejam diversas vezes muitos de nossos alunos, quando lhes é solicitado escrever, por exemplo, um artigo científico para uma disciplina, ou para um evento científico ou para um periódico.

Estou convicto de que muitos alunos (inclusive formandos e até já graduados em Letras, e em outras áreas, certamente) compartilham até mesmo de um sentimento de aversão ao escrever, em especial quando se trata de escrever textos científicos. Para o aluno (o aluno de iniciação científica, o aluno que está começando o mestrado, por exemplo), que se encontra em um estágio inicial de formação como pesquisador, escrever um texto científico trata-se, muitas vezes, de uma atividade aterrorizante. Confrontados com a necessidade de obedecer a convenções específicas (até então desconhecidas) estabelecidas pela comunidade acadêmica, cujo domínio, via de regra, demanda tempo e realização de atividades sistemáticas, muitos alunos se sentem desencorajados a escrever qualquer texto.

Na contramão desse quadro, tenho pensado e insistido em problematizar a relevância do exercício constante da produção de textos científicos e de publicação desses textos como pilares essenciais da formação do pesquisador, sobretudo do pesquisador iniciante. Se falo pilares, no plural mesmo, não quer dizer que eu tome o escrever e o publicar de forma estanque, separada. Minha ideia é não dissociar. Também não é pensar que se deva escrever textos científicos por obrigação (para cumprir, por exemplo, as exigências de uma disciplina, como expresso acima) ou para ceder às pressões do que se convencionou chamar de “produtivismo acadêmico”. É pensar que se escreve, acima de tudo, para se socializar uma leitura, uma compreensão, para interagir.

É certo que, de início, logo nos primeiros escritos, é difícil esperar que o pesquisador iniciante consiga produzir um texto científico publicável. Se no começo é um texto com ideias mal articuladas ou mesmo com “cópias” de trechos, aos poucos, com trabalho de orientação, com incentivo constante e um pouco de persistência, se chega a um texto de mais qualidade. As idas e vindas, as rasuras, fazem parte do processo de aprendizado. E elas contribuem para que o pesquisador iniciante se aproprie das habilidades de escrita científica e se familiarize com as convenções próprias do fazer científico. Para aqueles que se situam no campo das ciências humanas, nos quais se inserem os estudiosos da linguagem, isso não pode ser visto como algo menos importante e significativo do que uma contribuição relevante apresentada por um pesquisador experiente. Afinal, não se pode esquecer que cada escrita tem um significado único, singular na vida de cada sujeito-pesquisador e no seu processo de formação.

Quando insisto em não dissociar o escrever do publicar é porque penso também que o leque de possibilidades de diálogos que a publicação científica pode possibilitar contribui significativamente para o desenvolvimento pleno da capacidade de escrita de textos científicos. Penso que a escrita de textos dessa natureza é lugar para se explorar o diálogo com o-(s) outro-(s), a resposta de um outro como lugar de compreensão, cujos reflexos podem ser bastante proveitosos, já que, como nos ensina o pensamento bakhtiniano [2], “a compreensão amadurece apenas na resposta”. Penso aqui em várias possibilidades de diálogo, com:

  1. o outro que se é e que se altera a cada espaço-tempo da escrita;
  2. os autores, estudiosos e pesquisadores que se ler;
  3. o professor e/ou seu orientador de pesquisa;
  4. o seu colega, quando o texto que se produz é um trabalho coletivo;
  5. o avaliador do texto de um evento ou de um periódico
  6. o editor de um periódico ou o organizador de um livro;
  7. o interlocutor presumido (seja de um evento, de um periódico ou de uma coletânea);
  8. a grande temporalidade, de que fala o Círculo de Bakhtin.

Ainda que essa rede de diálogos nem sempre seja possível ou ainda que o seu produtor não tenha um retorno visível e concreto de um outro (falando aqui de uma resposta sob a forma de correções, apontamentos, sugestões, encaminhamentos, etc.), é fundamental que o pesquisador, especialmente aquele iniciante, pratique o exercício constante da escrita do texto científico, porque há sempre, nessa prática, uma possibilidade de diálogo, de encontro com um outro (pode-se pensar aí os diálogos do tipo 01 e 07 suscitados acima), de interagir, o que não deixa de ser sempre um momento de rico aprendizado. Não se pode deixar de pensar o exercício da escrita de textos científicos também como um lugar de descobertas e de produção de conhecimentos, como postula Amorim [3], ao tratar da escrita do texto de pesquisa.

Mais interessante mesmo é vislumbrar ser escutado/lido, porque acredito que, como consequência da intensidade com que se valoriza e se pratica a rede de diálogos apresentada acima, tem-se um alargamento cada vez maior da consciência do pesquisador, amplia-se a profundidade de sua compreensão – porque implicada aí uma luta entre pontos de vistas, entre posições de sujeitos, cujo resultado é a mudança mútua e o enriquecimento [4], numa espécie de diálogo inconcluso, como bem retratado no poema “Tecendo a manhã”, de João Cabral de Melo Neto:

Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

Diálogo como cruzamento de vozes, de ideias que se tecem a partir de ideias e que sugerem ideias, que são tomadas de empréstimo, “repetidas”, reacentuadas, que produzem sentidos… Profusão de diálogos, velados e explícitos (sem usar de más condutas), que marcam o dizer do pesquisador, (des)estabiliza-lhes e enriquecem seu dizer, ampliando, assim, as possibilidades de conquistar e assegurar uma maior interlocução no universo da academia, e, portanto, de se fazer escutar por outros tantos sujeitos. Afinal, como nos ensina Graciliano Ramos, em seu poema “As lavadeiras”, “A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer.”.

Que ousemos cada vez mais dizer e dizer sempre mais, ainda que o que se diz possa parecer coisa trivial para alguns, como condição de aprendizado e de paulatina inserção na esfera acadêmica, até porque, não se nasce pesquisador, tampouco sabendo escrever textos (científicos e não científicos) com maestria. O desafio da escrita é o mesmo de aprender falar e andar. E o desafio de se alcançar uma certa condição de excelência na escrita de textos científicos implica ao pesquisador (iniciante e também o já “adestrado”), a disposição para fazer e refazer quantas vezes forem necessárias, bem como a sabedoria para acolher elogios e receber críticas e (re)agir… Esse é um processo que se constrói a vida toda: a cada escrita, a cada texto corrigido, a cada parecer recebido, a cada texto recusado, a cada trabalho apresentado, a cada texto publicado, a cada reencontro com o papel em branco, a cada “(a)manhã”… Isso representa um modo de ser e de vivenciar, no mundo e na academia, a dimensão dialógica expressa pelo pensamento bakhtiniano, posto que, nessas condições, o escrever passa a ser lugar de compreensão, de exercício de reflexão, de descobertas, de aprendizado… enfim, lugar de escuta e, ao mesmo tempo, de fazer ouvir a “própria voz”, de se constituir como sujeito de linguagem, sujeito responsável e responsivo, em pleno embate de ideias. Ideias em jogo e movimento, dentro e fora de nós, em nó.

[1] Registro aqui um agradecimento a Luciane de Paula pela leitura atenta da primeira versão deste texto e pela inter-ação estabelecida. Os valiosos apontamentos e pertinentes sugestões resultantes dessa inter-ação estão refletidos e refratados na versão aqui apresentada.

[2] BAKHTIN, M. Questões de literatura e estética: a teoria do romance. 6. ed. São Paulo: Hucitec, 2010, p. 90.

[3] AMORIM, Marília. Freud e a escrita de pesquisa: uma leitura bakhtiniana. Eutomia: revista online de literatura e linguística, ano 2, n. 2 , dez. 2009.

[4] BAKHTIN, M. Estética da Criação Verbal. Tradução do russo de Paulo Bezerra. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2003, p. 378.

O título ainda vai ser tecido

Danyllo Ferreira Leite Basso
Co-labor-ação: Luciane de Paula

Ano ultimo. Último ano. Ano de despedida. Despedida de anos. Emoções desimpedidas são rompidas. E tantas rupturas e cisões comedidas. Ah, outras são impedidas. Entre as mais pedidas: as desentendidas. Como entender as idas e as vindas, voltas e re-voltas pelas quais passa o universitário sujeito em seu uni-verso solitário!? O itinerário vai do árido ao hilário. Tudo tão bizarro! Atam-se nós, desatam-se nós, articulam-se novos e antigos nós, amarrados até as entranhas. Nós cegos e também os frouxos que estrangulam-se uns aos outros. E assim se vão tecendo todos nós. Nós todos, tecidos nós. A sós, muito embora pareça-nos que o só sempre é, pelos menos, três nós: os nós de ontem, os nós de hoje e os nós de amanhã. Nunca os mesmos. Nós que se atam e desatam em nós, continuamente descontínuos. Passado, presente e futuro num só tempo: o tempo da mente, que mente e sente verdadeira-mente. Cria passado e futuro a partir do presente. Presente ente. Entes ados e urros: presente inexistente, pois liame histórico entre passados e futuros perpétuos e em constante construção. Memória criativa. Recriativa. Recreativa. Que cativa e ativa o que bem entende a partir dos moldes do ente e de sua história. Figurativa, representativa. Re(a)presenta e faz o passado voltar à ativa. Tudo de novo, novo. Renovo. E nesse renovo há o ovo pra nascitura da tessitura futura. Tecido em fios. Filigranas de nós. Nossos novos nós. Então, talvez, o passado e o futuro, até mesmo presente, são inexistentes. Não. São existentes na mente, no coração e no estômago do ente. Ora doente, ora carente, ora paciente, ora agente. A gente re-a-gente. Gente. Ficção. Fixação no homem. Fixação do homem. Dos homens. Assim, o tempo é ficção a-temporal. Parecia que ia durar. Ia. Não foi. Nem é. Para sempre que sempre acaba. Mas, independente do tempo que dura, ele perdura e perfura as paredes da memória. Sempre transitória. Em trânsito. Em movimento. Em curso! Dis-curso! Assim, segue esse meu eu, não só meu, mas também teu, que busca, na parede da lembrança, a esperança para a futura dança. Dança que traz, em sua elegância, a superação dessa ânsia. Busco em cada canto, e em cada encanto, o canto, o riso e o sorriso da minha memória despedaçada. A todos jogada. Refratada. Cada um, com sua parte dela, que é também minha e exatamente o que a faz mais bela nessa tela. Ao mesmo tempo que do presente olho o que já se desenhou, encorajo-me e, pela janela, olho o futuro que, por vezes, parece-me duro, mas está decidido. Cindido. Tido dito e não-dito. Mal-dito. Bem-dito. Qualquer coisa, depois me curo. Vou correr os riscos. Vou lançar ao mundo meus novos riscos. Vou desenhar ao passo que me desenho. Vou escrever como sou escrito. Estou, nessa vida, inscrito. Não pedirei aos céus as contas. Aos poucos, seguro as pontas. Amarro todas elas e malho novo tecido. Tecido de pano. Tecido de carne. Tecido de alma. Enfeite. Rede. Pra deitar e descansar. Tecido protetor. Pra /fazer–crer/. Tecido estendido aos que jamais serão esquecidos. Bandeira branca e negra, a mim e a quem mais as merecer. Eu-outro nós!

Com licença a palavra poética

Bruna de Souza Silva

“Ninguém entra num mesmo rio uma segunda vez, mas quando isso acontece já não se é o mesmo, assim como as águas que já serão outras… O fluxo eterno das coisas, é a própria essência do mundo”.

(Heráclito de Éfeso, Filósofo Grego, Séc. V a. C)

A palavra vive. Saltita, vibra, seduz, envolve, agita, age, branda, adocica, amarga, atinge, tinge, molda, transforma, soma, posiciona, assume, de dentro ou por fora, o fato é que, de certa maneira, a palavra que se fez torna-se, em qualquer modalidade, necessariamente ativa. Sentido este que a considera tecida por meio de um processo, não limitada em si como uma estrutura linguístico-gramatical distanciada da realidade da vida, mas sim, em confronto e diálogo, com valores ideológicos, históricos e sociais.
O circulo russo de Bakhtin não possuiu especificidades relativas propriamente à poesia, entretanto, suas discussões vinculadas à linguagem são tão abrangentes que satisfazê-las somente com a prosa seria limitá-las e não compreender as interdependências nas relações conceituais – impossíveis de serem dissociadas, pertencentes a um projeto filosófico dimensionado, em principal, entre diálogo, cultura e vida. Poética, nesse prisma, aborda toda linguagem ou discurso poético, de maneira ampla e influenciada – notoriamente – pela prosaica, em realce, de sua relação com a semântica. Conforme o teórico Cristovão Tezza ressalta (2006, p. 216), “para Bakhtin, o poético é a expressão completa de um olhar sobre o mundo que chama a si a responsabilidade total de suas palavras”.
A palavra poética de Arnaldo Antunes, como exemplar dessas considerações, será aqui proposta a uma breve reflexão, diante das variações de sentidos ocasionados, em prioritário, por sua maneira própria (estilística) de se relacionar e expressar as palavras. Nesse caso, por meio do poema “Rio: o ir” (1997, p. 45), um trabalho específico entre sentido, palavra e imagem. Nesse ato artístico há um posicionamento particular do poeta com a linguagem, muito usual no percorrer de suas obras. Com camadas múltiplas de significação, a procura de clareza expressiva atrelada à “coerência de esquemas lógicos”, André Gardel (2006) salienta que “No ato de desentranhar poético do não-poético, Arnaldo Antunes negocia com métodos, vocábulos e composições das ciências naturais, principalmente a física e a biologia”.

Rio: o ir

Na construção artística mencionada, salienta-se a estrutura poética formada por base da dupla apresentação: o poema visual é exibido a partir da palavra rio, disposta de forma circular para, infere-se, aludir ao caráter cíclico e contínuo das águas, em metáfora à vida, ao qual os rios levam ao mar (como um ralo natural) que é, simultaneamente, ponto de partida e de chegada; sucessivo e sequente. O verso–titulo que compõe o poema, por sua vez, esta posicionado em uma espécie de equação onde a palavra rio esta exposta compatível à sua constituição inversa (o ir), de modo a sugerir a ênfase aos movimentos de ida e volta em representação à confluência natural e contínua do rio. Portanto, em complementação ou completude a outra parte do poema – que pode ser lido do interior ao exterior ou do exterior ao interior.
Percepções plausíveis a partir do todo discursivo que tende a apresentar liames com outros discursos ou uma cadeia verbal constituída de enunciações, ao qual, um enunciado provoca outro. Nas palavras de Bakhtin/Volochínov, a enunciação realizada é como uma ilha emergindo de um oceano sem limites (2012, p. 129); afinal, a enunciação é de natureza social (2012, p. 113) e a situação social mais imediata e o meio social mais amplo determinam completamente e, por assim dizer, a partir do seu próprio interior, a estrutura da enunciação. (2012, p. 117). É conveniente ressalvar, contudo, entre as inúmeras relações entre enunciados de momentos históricos distintos associados à obra em análise, dentre variadas experimentações estéticas e parcerias, em conscientização, é claro, de que os diálogos existentes em um dado enunciado são inesgotáveis, a conveniente ligação com a canção “O rio” (2006), composta por Arnaldo Antunes, Marisa Monte, Carlinhos Brown e Seu Jorge.

Ouve o barulho do rio, meu filho
Deixa esse som te embalar
As folhas que caem no rio, meu filho
Terminam nas águas do mar

Quando amanhã por acaso faltar
Uma alegria no seu coração
Lembra do som dessas águas de lá
Faz desse rio a sua oração

Lembra, meu filho, passou, passará
Essa certeza, a ciência nos dá
Que vai chover quando o sol se cansar
Para que flores não faltem

Para que flores não faltem jamais

(http://www.marisamonte.com.br/pt/musica/infinito-particular/cifras/infinito-particular-o-rio. Segue link da canção para ser lida/ouvida, uma vez que o gênero é composto de, no mínimo, letra e música e, nesse caso, tratar de um enunciado construído a partir de um outro, anteriormente existente. Processo típico em AA, já iniciado quando ele se encontrava nos Titãs. Exemplo: Poema e canção “O que”, em análise por Luciane de Paula)

Por meio da letra aludida, nota-se que o sujeito da canção revela um apelo ao outro (ouve o barulho do rio, meu filho) sugestionado por inúmeras metáforas. O sujeito lírico apresenta, ao percorrer a canção, a atenção ao som típico do rio (como uma canção de acalanto – Deixa esse som te embalar) destinado a se deixar levar pelo curso da vida, por uma espécie de “destino”, marcado, aqui, pela natureza e, especificamente, pelo rio às ondas do mar. O rio é outra vez citado por seu caráter sequente em menção a elementos físicos e lógicos, em paralelo, neste plano de sentido, com a simbologia à passagem “indispensável” do tempo (lembra, meu filho, passou, passará). O rio, em suma, é equiparado a uma oração por transmitir serenidade sonora e prosseguir em um processo natural imprescindível para vida (Que vai chover quando o sol se cansar / Para que flores não faltem / Jamais).
O acontecimento poético, mesmo em gêneros diferentes, é, portanto, ocasionada por uma re-significação semântica atrelada à forma de expressão, ao trabalho com a palavra, ao agir na linguagem e como ou quem atribui-lhe sentidos – a compreensão com a promoção de diálogos específicos inexauríveis que se complementam entre si e, solicitam, em seu todo, a harmonização de sentidos. Em essência de texto, por fim, se alude ao poeta Paes (1996) que, por sua vez, remete à máxima filosófica de Heráclito, aqui exposta como epígrafe inspiradora desta breve reflexão, pois a palavra poética nunca se gasta por completo: “quanto mais se brinca com elas, mais novas ficam / como a água do rio que é água sempre nova / como cada dia que é sempre um novo dia / Vamos brincar de poesia?”

Referências bibliográficas principais:

Antunes, Arnaldo. Dois ou mais corpos no mesmo espaço. São Paulo: Perspectiva, 1997.
Bakhtin, M. M. (MEDVEDEV). (1920-1974). Estética da Criação Verbal. (Edição traduzida a partir do russo). São Paulo: Martins Fontes, 2003.
Bakhtin, M. M. (VOLOCHINOV). (1929). Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo: Hucitec, 2012.
PAES, José Paulo. Quem, eu? São Paulo: Atual, 1996.

http://www.arnaldoantunes.com.br/
http://www.marisamonte.com.br/pt

A leveza insustentável da vida e o peso de viver

Aline do Prado Aleixo Soares e Luciane de Paula

“Viver – não é? – é muito perigoso. Porque ainda não se sabe. Porque aprender-a-viver é que é viver, mesmo”
(Grande Sertão: Veredas, Guimarães Rosa)

“A vida humana só acontece uma vez e
não poderemos nunca verificar qual seria a boa ou a má decisão, porque, em todas as situações, só podemos decidir uma vez.
Não nos é dada uma segunda, uma terceira, uma quarta vida
para que possamos comparar decisões diferentes”
(A insustentável leveza do ser, Milan Kundera)

Em A insustentável leveza do ser, lemos, em suas diversas (e frequentes) digressões, ideias acerca da vida que não se repete: a vida, essa mesma, que todos nós vivemos e que é semiotizada no romance de Kundera, por meio de suas personagens. Essa vida é descrita, no romance, por meio de um discurso ambíguo que parte do narrador, como sendo pesada e, ao mesmo tempo, leve.
Essa contradição eterna se estende à vida de cada um, de cada sujeito, responsável, na acepção bakhtiniana do termo, já que a arte e a vida são duas instâncias que dialogam em suas constituições. A arte, segundo as ideias do Círculo, só adquire sentido quando incorporada, pelos sujeitos responsáveis que a experimentam, às suas vidas e passam, assim, a formar uma unidade com ela. Contraditoriamente. Como o ser humano o é: eufórico e disfórico, entusiasta e depressivo, amoroso e detestável, crítico e submisso, resistente e entregue…conflituoso (e) complexus.
Esse ser humano só vive, com todas as suas mazelas e ideais, quando trans-formado em linguagem. A linguagem o constitui tanto quanto ele constitui a linguagem. Por meio dela (e só por meio dela) sua existência passa a fazer sentido. Sentido enunciado sentido. Apenas na linguagem, o ser existe como sujeito. Não um sujeito qualquer, mas um sujeito ativo. Em atividade enunciada responsiva. Sujeito como pensado por Bakhtin: sem álibi na existência. Isto é, consciente de seus atos e, portanto, indesculpável. Sujeito que deve arcar com a responsabilidade de viver. E, pior, viver bem; bem viver.
O que eu faço vai de encontro ao e ao encontro do que outros fizeram, fazem e farão: os meus atos possuem consequências e eles são, querendo ou não, responsabilidade minha. Afinal, é na interação entre os diversos sujeitos que esses se constituem. O diálogo entre mim e o outro (todos os outros: o que existe em mim e os externos) é que constitui os sujeitos, já que sozinhos somos incompletos: falta a mim o excedente de visão, que apenas o outro tem, de mim e outros-outros. Excedente que permite a ele – e somente a ele – me ver com completude. Se somos, então, conscientes e responsáveis por nossos atos, ainda que incompletos e inacabados, em constante processo de vir-a-ser, como saber de que maneira responder à vida, numa existência em construção, que não se sabe viver exatamente porque processo de nossos atos e não produto a ser contemplado de fora?
Os meus atos têm consequências não só para mim, mas também – e isso é o que parece tornar a vida mais difícil – para o outro. Como saber viver, se a vida que vivemos uma única vez é esse eterno ensaio em concretização e sem rascunho de uma obra que se quer prima ao mesmo tempo em que o seu projeto de dizer se encontra em formação?
Essa é a leveza e ao mesmo tempo o peso da vida: só se vive uma vez. E isso implica, justamente, em duas coisas: como não podemos saber viver, tudo o que fazemos parece ser desculpado, destituído da responsabilidade de antemão – daí a leveza; e como devemos saber viver, ou seja, devemos escolher um caminho, tomar decisões, o peso da escolha e da responsabilidade recai, inevitavelmente, sobre os nossos atos, uma vez que temos consciência, no processo da vida, do que é ético e do que não é; do que queremos para nós e para os outros e do que não queremos e não devemos fazer. Nesse sentido, os nossos atos nos aprisionam e, ao mesmo tempo, libertam. Atos de linguagem, já concretos desde a raiz, em pensamento. Afinal, se somos seres enunciados, seres de linguagem, semiotizados, a expressão de nossos anseios já re-vela nossa representatividade e, portanto, nos liberta de determinadas amarras e nos enlaça em outras correntes.
Seja como for, a vida, inacabada, é reflexo e refração humana. Causa e consequência de nossos atos. Também linguagem em construção junto com os sujeitos. História em percurso. E, por isso, sempre, peso e leveza. Viver-se. Perigo de se ser, sendo-se. E assim, é. Já foi e será. Impossível querer apenas uma ponta, a delícia da leveza que liberta e libera. Somos viventes em construção como a vida se constrói em nós. Nós, não laços. Apertados e sufocantes, às vezes. Outras, brandos e frouxos. Diálogo entre vidas que se tecem em conjunto, de retalhos, por fios translúcidos, ao mesmo tempo, frágeis e flexíveis. Fios-bambus, difíceis de serem rompidos, mas, uma vez a ruptura realizada, jamais um remendo pode fazer fluir o ponto como outrora. Nesse sentido, somos todos moiras da linguagem cosendo-a, sem saber ao certo o que tricotamos, tendo como fim aprender-viver na vida que nos torna e já-é vir-a-ser. Esse é o deleite humano: ser sem ter sido. Essa também (é) a sua contenção: responder por seu fazer sem saber exatamente onde o rio da vida vai desembocar. Ainda que, no fim, todos saibamos: tecido findo, ponto final colocado, não mais espaço para se enunciar…morte do sujeito, morte do homem.
A leveza da vida recém-nascida se transforma com o peso da responsabilidade de vivê-la e bem. Peso que se quer leve, bem viver e que é constante, sempre a balizar todas as nossas de-cisões, os nossos atos responsáveis e responsivos. Como apender a viver com o peso da responsabilidade? Vivendo. Sem álibi da existência. De maneira leve e pesada, livre e enlaçada nas tramas tecidas full time por todos nós. E, com isso, aprender a viver, vivendo. Aprender que os atos são repercussão de outros atos, proprios e de outros, ontem, hoje e amanhã. E assim, a vida segue sendo tecida pelos sujeitos que nela vivem e a bordam. Mesmo sem que saibamos o que está por vir, devemos, inevitavelmente, encarar a responsabilidade dos nossos atos. Esse é o não-álibi no viver. Sua delicadeza e, como cantaria Caetano (“Dom de Iludir”), a “delícia de ser o que é”. Afinal, “Eu tentei compreender a costura da vida / Me enrolei porque a linha era muito comprida / E como é que eu vou fazer para desenrolar?” (“Costura da vida”, Interior – A 4 vozes). Desenrolar enrola. E enrolar dá (em) nó(s). Não há compreensão apenas mental da vida. Compreendê-la pede ato ou, como diria Clarice (Lispector), “Viver ultrapassa todo o entendimento”.

Sugestão de leitura: “Questões bakhtinianas para uma heterociência humana”

Sugerimos a leitura do texto “Questões bakhtinianas para uma heterociência humana” (disponível neste link), que apresenta uma entrevista com o professor Valdemir Miotello, da Universidade federal de São Carlos (UFSCar).
Fica aqui uma deixa ao diálogo, no melhor sentido pensado por Bakhtin. Vamos ao embate?