Reverberações de uma não-adolescente: o machismo latente no século XXI

Luciane de Paula

Hoje, trago à tona uma reflexão tempo-espacialmente descontextualizada, mas nem tanto. Descrevo uma vivência do “dia da mulher” deste ano, mas que se repete e faz sentido em qualquer dia, por isso, ainda em ebulição em mim. Potencializou-se naquela data. Tal vivência me foi tão expressiva que ainda ecoa e reverbera, prenhe de respostas. Por isso, a vontade de externalizá-la e compartilhá-la com todos. O tema, é claro, é o machismo nosso de cada dia, exacerbado no dia que deveria fazer com que reflexões e tomadas de consciência se manifestassem em atos e constituíssem histórias diferentes, mas que, como não somos ingênuos, sabemos, não é o que ocorre. Espero que ao menos ao trazer o tema à tona, possamos pensar e conversar sobre ele.

Há muito tempo eu não saia sozinha. No dia internacional da mulher deste ano, depois de algumas mensagens e algumas flores, alguns sustos e algumas brigas, a mulher aqui resolveu jantar fora num restaurante italiano que eu adoro. Assim, do nada, sem reservas, como sou. Iniciou-se uma jornada surpreendente ao que deveria ser apenas um jantar agradável antes de uma cirurgia que se aproximava.

Ao chegar ao restaurante, para a minha surpresa (mas nem tanto), senti-me um “E.T.”. Isso mesmo. Fui alvo da atenção de todos. A simples presença de uma mulher sozinha num restaurante num sábado à noite de “comemoração” à mulher causou estranhamento. Nos outros. Em mim, o estranhamento se deu pelo estranhamento expresso e gerado sem sentido. A maioria presente era composta por casais aparentemente apaixonados e algumas poucas famílias que ali se reuniam. Mais parecia um dia dos namorados (sem copa do mundo) do que dia da mulher.

Sem nem pensar numa possibilidade remota do que vivenciei, causei constrangimentos e agitações. A princípio, isso se materializou nos olhares, burburinhos e nos atos dos garçons, que não sabiam como lidar com a situação de me receber, acomodar em uma mesa e perguntar qual o meu pedido. Sem alvoroço, perguntei se havia uma mesa disponível para mim. “Só uma pessoa?”, foi a pergunta. Sim e em mim, como em Fernando Pessoa, já habitava uma multidão!

Um dos garçons se apressou em me oferecer uma rosa e me parabenizar pelo “seu (meu) dia”. Outro, mais “safo”, cuidou de me direcionar a uma sala “reservada”, provavelmente para que a “lunática” aqui não mais incomodasse a tradição familiar e não causasse indigestões. Fiquei, já, desde o primeiro contato, inevitavelmente, perguntando-me o que significava esse tal dia e o que os estudos bakhtinianos tinham a ver com aquilo tudo. Só vinha à minha mente as palavras-chaves ética, responsabilidade, não-álibi do sujeito, constituição do eu-outro…e, especificamente com relação a esta, eu, definitivamente, não era composta pela imagem daqueles outros que não-queriam, mas, sim, me compunham. Outros estranhos. Melhor, eu estranha a eles. Exotópica, deslocada. Eu, mulher sozinha, solteira, hetero e emocionalmente bem resolvida com alguns de meus tantos fantasmas, não era o eu-para-o-outro que ali se encontrava. Também não queria que eles fossem os outros-para-mim, mas, nisso, não temos escolha. Apenas fiquei pensando, em frações de segundos, como a revolução feminista ainda faz sentido e o quanto as mulheres ainda precisam caminhar.

Sentei-me na tal sala “reservada” e disse que não conhecia aquele ambiente, já que conheço e aprecio a casa. A resposta imediata que recebi foi: “Ah, quase não usamos esse ambiente, mas acho que você vai se sentir mais à vontade nele”. Eu esbocei um sorriso, pensei em responder, mas resolvi pedir o menu e escolher o prato. Pensassem o que quisessem, a sala era bonita e, naquele momento, exclusiva, como era conveniente ao senso comum. Este, sim, incomodado comigo. Eu, na minha, feliz e louca para saborear a gôndola de espinafre com queijo brie que tanto gosto, sem querer, mas adorando, estava demonstrando uma grande lição a todos os bossa-novas da vida, carnavalizando com minha presença feminina, independente e feliz.

Fui pegar os antepastos e quando estava me deliciando com a entrada, toda à vontade entre queijos, pães e sardelas, o senhor que toca acordeom não se conteve: adentrou a sala, tocou uma canção de Vinícius para mim e, inconformado, veio até a mesa e me perguntou: “Você está sozinha hoje? Por que? Coitadinha! Quer que eu toque alguma música específica pra você?”. Eu ri muito. Olhei para ele e disse que todos somos sozinhos e acompanhados dos outros que nos cercam, como dele, naquele momento. Mesmo que não tivesse vindo falar comigo e emitir sua opinião e sentimento de dó. Disse que precisamos aprender o que é nosso e o que é do outro, de fora e que, acima de tudo, somos quem somos, sem olhares, julgamentos de desconhecidos e, mesmo com eles, podemos nos auto afirmar. Disse que ele estava equivocado ao pensar que eu estava triste ou que havia levado um fora e, por isso, estava sozinha. Não era o caso. Eu gosto da minha independência e preciso de momentos comigo mesma, meus eus-outros de mim. Além disso, só mulheres muito mulheres têm coragem de enfrentar a hipocrisia social e anunciar ao mundo que são quem (e não o que) são sem precisar de um homem ou aparentes companhias como muletas para existirem. Nossas existências são vida e morte processuais e ininterruptas. Conjuntas e isoladas. Não há como fugir. E penso ser preciso enfrentar de peito aberto essa torrente de vida e morte que nos toma para se resolver, tentando trazer à consciência os atos da vida. Arrematei, docemente, dizendo que ele precisava rever os seus conceitos, bem como qual a significação de 08 de março. Como ele estava muito sem graça, eu disse que queria uma música, sim. Italiana. Comemorativa. A mim. Às mulheres. Às feministas. Ele tocou “Volare” e saiu. Ninguém mais entrou na sala, a não ser para servir-me o prato pedido (que, por sinal, estava dos deuses), o cappuccino e a conta (felizes porque o estorvo aqui, finalmente, iria sair do recinto e a ordem “natural” das coisas iria ser reestabelecida).

Fiquei cá com meus botões pensando: quantos daqueles casais não estavam ali de corpo presente, mas completamente solitários (com seus outros internos), distantes emocional e mentalmente? Por que uma mulher sozinha não pode estar bem e incomoda tanto? Se fosse um homem, será que as reações seriam as mesmas? Com certeza, não. Quando é que vamos conseguir avançar e quebrar com totens e tabus machistas tão arraigados? Que atos serão ainda necessários para sermos re-conhecidos como seres humanos, como iguais com suas peculiaridades e semelhanças? Em pleno século XXI, a sensação que tive é que muitos sutiãs ainda precisam ser queimados! E há quem, até hoje, não entenda (ou não queira compreender) a importância do papel de Simone de Beauvoir, Chiquinha Gonzaga, entre outras tantas que nos abriram caminhos até para que, agora, eu, aqui, possa trazer essa discussão à baila!

Nada contra casais ou famílias. Nada contra celebrarmos o dia 8 de março, tendo-o como marco de uma história muito mal contada: a história das mulheres, escondida na vida privada, na cozinha e na alcova, junto a escravos negros, a homossexuais e tantos outros excluídos, chamados de marginais, invisíveis, como tentaram me fazer ficar na sala “reservada” de um restaurante na referida data, em pleno século XXI! Tudo contra o preconceito machista de que “é impossível ser feliz sozinho” (não foi à toa que o sanfoneiro veio tocar Vinícius como introdução a uma conversa com tom de piedade. Ele, com certeza, ainda se sentiu gentil e lisonjeiro por se dirigir a mim. Vejamos como são os pontos de vista…). Seja como for, em casal, em família ou sozinha, o que importa é o respeito ainda inexistente e hipócrita, que devemos exigir pra além dos cumprimentos e posts nas redes sociais!

Até parece que o relato reflexivo acima se referiu a um evento cotidiano de preconceito atemporal naturalizado (nada natural). A minha indignação não é, como canta Skank, “uma mosca sem asas” que “não ultrapassa as janelas de nossas casas”. Temos de falar sobre isso. Temos de gritar e não nos “acostumar” com esse tipo de re-ação. A sensação continuará sendo essa se nada fizermos a respeito. E o machismo impregnado em todos só se fortalece se continuarmos agindo como se os fatos banais fossem nada. Incorporado em nós. Mudar não depende apenas de mim, mas também dos outros todos que constituem a sociedade, os sujeitos (interna e externamente), sejam eles de que gênero for, na relação real, vida vivida a cada dia, na pequena que se transforma em grande temporalidade! Em tempo de redes sociais: “#ficaadica”!

Do lugar e relevância do escrever e publicar na formação do sujeito-pesquisador

José Cezinaldo Rocha Bessa (UNESP/UERN) [1]

“Olha, eu trabalhava e tive que descobrir meu método sozinha. Não tinha conhecido ninguém ainda. Me ocorriam idéias e eu sempre me dizia: “Tá bem. Amanhã de manhã eu escrevo”. Sem perceber que, em mim, fundo e forma é uma coisa só. Já vem a frase feita. Enquanto eu deixava “para amanhã”, continuava o desespero toda manhã diante do papel branco. E a idéia? Não tinha mais. Então eu resolvi tomar nota de tudo que me ocorria.”
(Clarice Lispector, grifos meus)

Das diversas práticas que me movem no universo da academia, seja como pesquisador, seja como professor, seja como aluno, a produção escrita é, decididamente, aquela com a qual eu tenho estabelecido uma relação mais amorosa. Não porque sempre fui um sujeito dado a escrever ou porque tenha aprendido a escrever com alguma “maestria”. Pelo contrário, foi justamente num contexto de tomada de consciência de minha dificuldade de escrever (atestada por ocasião da produção da temida “redação de vestibular”), que eu passaria a olhar para a escrita com mais entusiasmo, se assim posso dizer.

Já durante a minha formação no curso de Licenciatura em Letras, eu viria a me interrogar sobre como um sujeito como eu, que apresentando tanta dificuldade de escrita, poderia estar justamente ali, num curso de Letras (onde já se imagina alguém que sabe “ler e escrever bem”, que escreve com clareza, com objetividade, sem “erros” de regência ou concordância… alguém que escreve com “perfeição”). Mais, como a partir de minha experiência e de minha formação poderia colaborar com essa tarefa árdua (inclusive de formação) de tantos outros sujeitos em condições parecidas com aquela em que eu me encontrava quando comecei meu curso.

Uma coisa estava clara, para mim, naquele momento: eu não sabia escrever. E mais, eu sempre fazia questão de dizer: escrever é um grande “martírio”. O meu encontro com a escrita, com aquele papel em branco, era também, ressignificando e/ou reacentuando aqui as palavras de Clarice Lispector, um momento de desespero, de angústia.

Gosto de ser honesto comigo mesmo. De pensar que escrever não é uma dessas atividades que mais me desperta prazer, ainda que eu a pratique diariamente, de pensar também que é uma atividade que eu gostaria de adiar, talvez, para um amanhã, um depois de amanhã… ou, quem sabe, indefinidamente. Mas sou chamado à realidade e a reconhecer o lugar essencial e decisivo que a escrita de textos desempenha na minha formação e, certamente, na vida de cada um que me ler. Entendi que escrever é preciso e é exercício essencial na busca incessante por respostas às questões que me cercam e me constituem como pesquisador, como professor, como aluno, como filho, como irmão, como amigo… como sujeito, como ser de linguagem.

Não por acaso, até hoje me interesso por pesquisar a produção escrita. Não por acaso, até hoje me coloco na escuta dos discursos que emanam da escrita produzida no espaço de sala de aula. Quero pensar que os escutar não é tão somente uma atividade de pesquisador, mas que os escutar é também uma forma prazerosa de compreender como me constituo como produtor de textos e como posso contribuir com a escrita do outro, desse outro que me constitui, também, em sua escrita (ainda que não apenas por meio dela).

No meu percurso de encontro com essa temática e com leituras sobre ela até o momento, aprendi também que, se para alguns, escrever é um exercício fácil e prazeroso, para outros não passa de uma atividade torturante, algo que se poderia adiar, como desejam diversas vezes muitos de nossos alunos, quando lhes é solicitado escrever, por exemplo, um artigo científico para uma disciplina, ou para um evento científico ou para um periódico.

Estou convicto de que muitos alunos (inclusive formandos e até já graduados em Letras, e em outras áreas, certamente) compartilham até mesmo de um sentimento de aversão ao escrever, em especial quando se trata de escrever textos científicos. Para o aluno (o aluno de iniciação científica, o aluno que está começando o mestrado, por exemplo), que se encontra em um estágio inicial de formação como pesquisador, escrever um texto científico trata-se, muitas vezes, de uma atividade aterrorizante. Confrontados com a necessidade de obedecer a convenções específicas (até então desconhecidas) estabelecidas pela comunidade acadêmica, cujo domínio, via de regra, demanda tempo e realização de atividades sistemáticas, muitos alunos se sentem desencorajados a escrever qualquer texto.

Na contramão desse quadro, tenho pensado e insistido em problematizar a relevância do exercício constante da produção de textos científicos e de publicação desses textos como pilares essenciais da formação do pesquisador, sobretudo do pesquisador iniciante. Se falo pilares, no plural mesmo, não quer dizer que eu tome o escrever e o publicar de forma estanque, separada. Minha ideia é não dissociar. Também não é pensar que se deva escrever textos científicos por obrigação (para cumprir, por exemplo, as exigências de uma disciplina, como expresso acima) ou para ceder às pressões do que se convencionou chamar de “produtivismo acadêmico”. É pensar que se escreve, acima de tudo, para se socializar uma leitura, uma compreensão, para interagir.

É certo que, de início, logo nos primeiros escritos, é difícil esperar que o pesquisador iniciante consiga produzir um texto científico publicável. Se no começo é um texto com ideias mal articuladas ou mesmo com “cópias” de trechos, aos poucos, com trabalho de orientação, com incentivo constante e um pouco de persistência, se chega a um texto de mais qualidade. As idas e vindas, as rasuras, fazem parte do processo de aprendizado. E elas contribuem para que o pesquisador iniciante se aproprie das habilidades de escrita científica e se familiarize com as convenções próprias do fazer científico. Para aqueles que se situam no campo das ciências humanas, nos quais se inserem os estudiosos da linguagem, isso não pode ser visto como algo menos importante e significativo do que uma contribuição relevante apresentada por um pesquisador experiente. Afinal, não se pode esquecer que cada escrita tem um significado único, singular na vida de cada sujeito-pesquisador e no seu processo de formação.

Quando insisto em não dissociar o escrever do publicar é porque penso também que o leque de possibilidades de diálogos que a publicação científica pode possibilitar contribui significativamente para o desenvolvimento pleno da capacidade de escrita de textos científicos. Penso que a escrita de textos dessa natureza é lugar para se explorar o diálogo com o-(s) outro-(s), a resposta de um outro como lugar de compreensão, cujos reflexos podem ser bastante proveitosos, já que, como nos ensina o pensamento bakhtiniano [2], “a compreensão amadurece apenas na resposta”. Penso aqui em várias possibilidades de diálogo, com:

  1. o outro que se é e que se altera a cada espaço-tempo da escrita;
  2. os autores, estudiosos e pesquisadores que se ler;
  3. o professor e/ou seu orientador de pesquisa;
  4. o seu colega, quando o texto que se produz é um trabalho coletivo;
  5. o avaliador do texto de um evento ou de um periódico
  6. o editor de um periódico ou o organizador de um livro;
  7. o interlocutor presumido (seja de um evento, de um periódico ou de uma coletânea);
  8. a grande temporalidade, de que fala o Círculo de Bakhtin.

Ainda que essa rede de diálogos nem sempre seja possível ou ainda que o seu produtor não tenha um retorno visível e concreto de um outro (falando aqui de uma resposta sob a forma de correções, apontamentos, sugestões, encaminhamentos, etc.), é fundamental que o pesquisador, especialmente aquele iniciante, pratique o exercício constante da escrita do texto científico, porque há sempre, nessa prática, uma possibilidade de diálogo, de encontro com um outro (pode-se pensar aí os diálogos do tipo 01 e 07 suscitados acima), de interagir, o que não deixa de ser sempre um momento de rico aprendizado. Não se pode deixar de pensar o exercício da escrita de textos científicos também como um lugar de descobertas e de produção de conhecimentos, como postula Amorim [3], ao tratar da escrita do texto de pesquisa.

Mais interessante mesmo é vislumbrar ser escutado/lido, porque acredito que, como consequência da intensidade com que se valoriza e se pratica a rede de diálogos apresentada acima, tem-se um alargamento cada vez maior da consciência do pesquisador, amplia-se a profundidade de sua compreensão – porque implicada aí uma luta entre pontos de vistas, entre posições de sujeitos, cujo resultado é a mudança mútua e o enriquecimento [4], numa espécie de diálogo inconcluso, como bem retratado no poema “Tecendo a manhã”, de João Cabral de Melo Neto:

Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

Diálogo como cruzamento de vozes, de ideias que se tecem a partir de ideias e que sugerem ideias, que são tomadas de empréstimo, “repetidas”, reacentuadas, que produzem sentidos… Profusão de diálogos, velados e explícitos (sem usar de más condutas), que marcam o dizer do pesquisador, (des)estabiliza-lhes e enriquecem seu dizer, ampliando, assim, as possibilidades de conquistar e assegurar uma maior interlocução no universo da academia, e, portanto, de se fazer escutar por outros tantos sujeitos. Afinal, como nos ensina Graciliano Ramos, em seu poema “As lavadeiras”, “A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer.”.

Que ousemos cada vez mais dizer e dizer sempre mais, ainda que o que se diz possa parecer coisa trivial para alguns, como condição de aprendizado e de paulatina inserção na esfera acadêmica, até porque, não se nasce pesquisador, tampouco sabendo escrever textos (científicos e não científicos) com maestria. O desafio da escrita é o mesmo de aprender falar e andar. E o desafio de se alcançar uma certa condição de excelência na escrita de textos científicos implica ao pesquisador (iniciante e também o já “adestrado”), a disposição para fazer e refazer quantas vezes forem necessárias, bem como a sabedoria para acolher elogios e receber críticas e (re)agir… Esse é um processo que se constrói a vida toda: a cada escrita, a cada texto corrigido, a cada parecer recebido, a cada texto recusado, a cada trabalho apresentado, a cada texto publicado, a cada reencontro com o papel em branco, a cada “(a)manhã”… Isso representa um modo de ser e de vivenciar, no mundo e na academia, a dimensão dialógica expressa pelo pensamento bakhtiniano, posto que, nessas condições, o escrever passa a ser lugar de compreensão, de exercício de reflexão, de descobertas, de aprendizado… enfim, lugar de escuta e, ao mesmo tempo, de fazer ouvir a “própria voz”, de se constituir como sujeito de linguagem, sujeito responsável e responsivo, em pleno embate de ideias. Ideias em jogo e movimento, dentro e fora de nós, em nó.

[1] Registro aqui um agradecimento a Luciane de Paula pela leitura atenta da primeira versão deste texto e pela inter-ação estabelecida. Os valiosos apontamentos e pertinentes sugestões resultantes dessa inter-ação estão refletidos e refratados na versão aqui apresentada.

[2] BAKHTIN, M. Questões de literatura e estética: a teoria do romance. 6. ed. São Paulo: Hucitec, 2010, p. 90.

[3] AMORIM, Marília. Freud e a escrita de pesquisa: uma leitura bakhtiniana. Eutomia: revista online de literatura e linguística, ano 2, n. 2 , dez. 2009.

[4] BAKHTIN, M. Estética da Criação Verbal. Tradução do russo de Paulo Bezerra. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2003, p. 378.

Com licença a palavra poética

Bruna de Souza Silva

“Ninguém entra num mesmo rio uma segunda vez, mas quando isso acontece já não se é o mesmo, assim como as águas que já serão outras… O fluxo eterno das coisas, é a própria essência do mundo”.

(Heráclito de Éfeso, Filósofo Grego, Séc. V a. C)

A palavra vive. Saltita, vibra, seduz, envolve, agita, age, branda, adocica, amarga, atinge, tinge, molda, transforma, soma, posiciona, assume, de dentro ou por fora, o fato é que, de certa maneira, a palavra que se fez torna-se, em qualquer modalidade, necessariamente ativa. Sentido este que a considera tecida por meio de um processo, não limitada em si como uma estrutura linguístico-gramatical distanciada da realidade da vida, mas sim, em confronto e diálogo, com valores ideológicos, históricos e sociais.
O circulo russo de Bakhtin não possuiu especificidades relativas propriamente à poesia, entretanto, suas discussões vinculadas à linguagem são tão abrangentes que satisfazê-las somente com a prosa seria limitá-las e não compreender as interdependências nas relações conceituais – impossíveis de serem dissociadas, pertencentes a um projeto filosófico dimensionado, em principal, entre diálogo, cultura e vida. Poética, nesse prisma, aborda toda linguagem ou discurso poético, de maneira ampla e influenciada – notoriamente – pela prosaica, em realce, de sua relação com a semântica. Conforme o teórico Cristovão Tezza ressalta (2006, p. 216), “para Bakhtin, o poético é a expressão completa de um olhar sobre o mundo que chama a si a responsabilidade total de suas palavras”.
A palavra poética de Arnaldo Antunes, como exemplar dessas considerações, será aqui proposta a uma breve reflexão, diante das variações de sentidos ocasionados, em prioritário, por sua maneira própria (estilística) de se relacionar e expressar as palavras. Nesse caso, por meio do poema “Rio: o ir” (1997, p. 45), um trabalho específico entre sentido, palavra e imagem. Nesse ato artístico há um posicionamento particular do poeta com a linguagem, muito usual no percorrer de suas obras. Com camadas múltiplas de significação, a procura de clareza expressiva atrelada à “coerência de esquemas lógicos”, André Gardel (2006) salienta que “No ato de desentranhar poético do não-poético, Arnaldo Antunes negocia com métodos, vocábulos e composições das ciências naturais, principalmente a física e a biologia”.

Rio: o ir

Na construção artística mencionada, salienta-se a estrutura poética formada por base da dupla apresentação: o poema visual é exibido a partir da palavra rio, disposta de forma circular para, infere-se, aludir ao caráter cíclico e contínuo das águas, em metáfora à vida, ao qual os rios levam ao mar (como um ralo natural) que é, simultaneamente, ponto de partida e de chegada; sucessivo e sequente. O verso–titulo que compõe o poema, por sua vez, esta posicionado em uma espécie de equação onde a palavra rio esta exposta compatível à sua constituição inversa (o ir), de modo a sugerir a ênfase aos movimentos de ida e volta em representação à confluência natural e contínua do rio. Portanto, em complementação ou completude a outra parte do poema – que pode ser lido do interior ao exterior ou do exterior ao interior.
Percepções plausíveis a partir do todo discursivo que tende a apresentar liames com outros discursos ou uma cadeia verbal constituída de enunciações, ao qual, um enunciado provoca outro. Nas palavras de Bakhtin/Volochínov, a enunciação realizada é como uma ilha emergindo de um oceano sem limites (2012, p. 129); afinal, a enunciação é de natureza social (2012, p. 113) e a situação social mais imediata e o meio social mais amplo determinam completamente e, por assim dizer, a partir do seu próprio interior, a estrutura da enunciação. (2012, p. 117). É conveniente ressalvar, contudo, entre as inúmeras relações entre enunciados de momentos históricos distintos associados à obra em análise, dentre variadas experimentações estéticas e parcerias, em conscientização, é claro, de que os diálogos existentes em um dado enunciado são inesgotáveis, a conveniente ligação com a canção “O rio” (2006), composta por Arnaldo Antunes, Marisa Monte, Carlinhos Brown e Seu Jorge.

Ouve o barulho do rio, meu filho
Deixa esse som te embalar
As folhas que caem no rio, meu filho
Terminam nas águas do mar

Quando amanhã por acaso faltar
Uma alegria no seu coração
Lembra do som dessas águas de lá
Faz desse rio a sua oração

Lembra, meu filho, passou, passará
Essa certeza, a ciência nos dá
Que vai chover quando o sol se cansar
Para que flores não faltem

Para que flores não faltem jamais

(http://www.marisamonte.com.br/pt/musica/infinito-particular/cifras/infinito-particular-o-rio. Segue link da canção para ser lida/ouvida, uma vez que o gênero é composto de, no mínimo, letra e música e, nesse caso, tratar de um enunciado construído a partir de um outro, anteriormente existente. Processo típico em AA, já iniciado quando ele se encontrava nos Titãs. Exemplo: Poema e canção “O que”, em análise por Luciane de Paula)

Por meio da letra aludida, nota-se que o sujeito da canção revela um apelo ao outro (ouve o barulho do rio, meu filho) sugestionado por inúmeras metáforas. O sujeito lírico apresenta, ao percorrer a canção, a atenção ao som típico do rio (como uma canção de acalanto – Deixa esse som te embalar) destinado a se deixar levar pelo curso da vida, por uma espécie de “destino”, marcado, aqui, pela natureza e, especificamente, pelo rio às ondas do mar. O rio é outra vez citado por seu caráter sequente em menção a elementos físicos e lógicos, em paralelo, neste plano de sentido, com a simbologia à passagem “indispensável” do tempo (lembra, meu filho, passou, passará). O rio, em suma, é equiparado a uma oração por transmitir serenidade sonora e prosseguir em um processo natural imprescindível para vida (Que vai chover quando o sol se cansar / Para que flores não faltem / Jamais).
O acontecimento poético, mesmo em gêneros diferentes, é, portanto, ocasionada por uma re-significação semântica atrelada à forma de expressão, ao trabalho com a palavra, ao agir na linguagem e como ou quem atribui-lhe sentidos – a compreensão com a promoção de diálogos específicos inexauríveis que se complementam entre si e, solicitam, em seu todo, a harmonização de sentidos. Em essência de texto, por fim, se alude ao poeta Paes (1996) que, por sua vez, remete à máxima filosófica de Heráclito, aqui exposta como epígrafe inspiradora desta breve reflexão, pois a palavra poética nunca se gasta por completo: “quanto mais se brinca com elas, mais novas ficam / como a água do rio que é água sempre nova / como cada dia que é sempre um novo dia / Vamos brincar de poesia?”

Referências bibliográficas principais:

Antunes, Arnaldo. Dois ou mais corpos no mesmo espaço. São Paulo: Perspectiva, 1997.
Bakhtin, M. M. (MEDVEDEV). (1920-1974). Estética da Criação Verbal. (Edição traduzida a partir do russo). São Paulo: Martins Fontes, 2003.
Bakhtin, M. M. (VOLOCHINOV). (1929). Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo: Hucitec, 2012.
PAES, José Paulo. Quem, eu? São Paulo: Atual, 1996.

http://www.arnaldoantunes.com.br/
http://www.marisamonte.com.br/pt