Bolsonaro e a negação da ideologia no Enem 

Carolina Gomes Sant’ana

Desde o início de seu mandato como presidente, Jair Bolsonaro vem, abertamente, tentando interferir nas questões do Enem. Na segunda-feira que seguiu a aplicação da prova de 2021, o presidente afirmou: “Tão acusando aí o ministro Milton [Ribeiro] de ter interferido na elaboração das provas. Ora, se ele tivesse a capacidade e eu não teria nenhuma questão de ideologia nessa prova, que teve ainda. Você é obrigado a aproveitar o banco de dados de anos anteriores.” (XAVIER, 2021). Essa fala contradiz enunciados anteriores, em que ele afirma que a prova teria a cara de seu governo. Também em discordância com a negação de interferência e censura da prova, ele afirmou: “Agora dá pra mudar? Já está mudando. Vocês não viram mais a linguagem de tal tipo de gente com tal perfil. Não existe isso aí. A linguagem do que o cara faz entre quatro paredes é problema dele. Agora não tem mais aquilo de linguagem neutra de não sei de quem. Não tem mais” (XAVIER, 2021). A linguagem a qual ele se refere é conhecida como linguagem neutra, usada na comunidade LGBTQIA+, criada para evitar a categorização de gênero de sujeitos que não se identificam com o padrão binário tradicional e conservador. Nesta segunda fala, Bolsonaro não apenas mostra seu posicionamento axiológico de desrespeito a minorias, como assume sua intervenção na criação das provas. 

Deste tema surge a questão: É possível fazer uma prova de Enem livre de questões ideológicas? De acordo com os estudos do Círculo de Bakhtin, a resposta é não. Isso porque segundo o estudioso, todo enunciado é ideológico, pois este é a materialização da consciência do sujeito. E a consciência é constituída de ideologias e signos ideológicos. 

A consciência se forma e se realiza no material sígnico criado no processo da comunicação social de uma coletividade organizada. A consciência individual se nutre dos signos, cresce a partir deles, reflete em si a sua lógica  e as suas leis. A lógica da consciência é a lógica da comunicação ideológica.  (VOLÓCHINOV, 2018, p. 97) 

Podemos ver nos estudos do filósofo russo, que a ideologia não é um evento criado pela natureza e utilizado por humanos, mas sim uma construção social que existe apenas em grupos socialmente organizados e capazes de comunicação. Tendo em mente que esta comunicação não precisa necessariamente ser a oralidade, pode ocorrer de outras formas, como movimentos corporais, sons, expressões faciais, entre outros. É pela comunicação que os sujeitos transmitem ideias e informações para os outros, e nessas interações, em que o sujeito ao compreender o enunciado, assume posição responsiva. 

O ouvinte, ao perceber e compreender o significado (linguístico) do discurso, ocupa simultaneamente em relação à ele uma ativa posição responsiva: concorda ou discorda dele (total ou parcialmente), completa-o, aplica-o, prepara-se para usá-lo, etc.; […] toda compreensão é prenhe de resposta […] (BAKHTIN, 2011, p.271) 

São nessas interações que o sujeito tem sua consciência constituída por ideologias, que são semiotizadas pelos signos ideológicos. Já que, para Bakhtin, a palavra é meio ideal de comunicação, pois apresenta maior nuance e é capaz de mais fielmente representar conceitos, além de acompanhar mudanças sociais. Enquanto isolado, o signo é neutro de carga ideológica, é então potencialidade. Entretanto, quando é colocado em uso, na linguagem viva, no diálogo, o signo recebe do falante uma valoração ideológica. Todavia, quando este signo entra na consciência do ouvinte, ele entra, portanto, em um novo contexto, ela recebe nova valoração ideológica. Isso porque cada sujeito ocupa um lugar único na existência, possui uma vivência única, moldada pelas relações que ele estabeleceu com outros sujeitos e o mundo ao seu redor durante sua vida. Assim, cada sujeito possui seu ponto de vista único, sua consciência única. 

Essa multiacentuação do signo ideológico é um aspecto muito importante. Na verdade, apenas esse cruzamento de acentos proporciona ao signo a capacidade de viver, de movimentar-se e desenvolver-se. Ao ser retirado da disputa social acirrada, o signo ficará fora da disputa de classes, inevitavelmente enfraquecendo, degenerando em alegoria e transformando-se em um objeto de análise filológica e não da interpretação social viva. (VOLÓCHINOV, 2018, p. 113) 

Se os sujeitos têm a consciência constituída por ideologias, é, portanto, impossível produzir enunciados sem ideologias, pois é impossível compreender o mundo sem um viés ideológico. Cada signo utilizado pelo sujeito na enunciação é uma escolha ativa (mesmo que o sujeito não perceba que está fazendo essa escolha) para transmitir a ideia desejada. Assim, um enunciado neutro, livre de valoração ideológica não pode existir. Todo enunciado existe dentro de um contexto sócio-histórico-político específico (cheio de ideologias) e é produzido por um sujeito específico (constituído por ideologias). 

Ninguém pode ocupar uma posição neutra em relação a mim e ao outro; o ponto de vista abstrato-cognitivo carece de um enfoque axiológico, a diretriz axiológica necessita de que ocupemos uma posição singular no acontecimento único da existência, de que nos encarnemos. Todo juízo de valor é sempre uma tomada de posição individual na existência; até Deus precisou encarnar-se para amar, sofrer e perdoar, teve, por assim dizer, de abandonar o ponto de vista abstrato sobre a justiça. (VOLÓCHINOV, 2018, p. 117) 

Conclui-se então que por mais que Bolsonaro constantemente demonstra ser contrário a “questões ideológicas” no Enem, e tente censurá-lo, é impossível a existência de um enunciado não ideológico. O que o presidente deseja é, portanto, uma prova que apresente valorações ideológicas com as quais ele concorda, que incentivam a passividade social, a discriminação de minorias e o reforço de um sistema conservador patriarcal, racista, homofóbico e elitista, que mantém e reforça as estruturas de poder que beneficiam as elites em detrimento do resto da sociedade. A ideologia de Bolsonaro é a de violência, da discriminação, de negação da ciência e da miséria. 

Referências 

BAKHTIN, M. Estética da Criação Verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2011. VOLÓCHINOV, V. Marxismo e filosofia da linguagem. Rio de Janeiro: 34, 2018.

XAVIER, G. Bolsonaro diz que Enem teve questão ideológica e que não interferiu na prova. Carta Capital. Publicado em 2021. Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/politica/bolsonaro-diz-que-enem-teve-questao-ideologica-e-q ue-nao-interferiu-na-prova/. Acesso em: 22 de nov 2021.

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